sábado, 25 de abril de 2009

Chuva de Vento


Este texto foi escrito em janeiro de 2009. Estava de férias na casa de praia da minha irmã mais velha quando Lydiane, a caçula, nos ligou. Estava chovendo muito e a vontade que tive quando desliguei o telefone era sair gritando e correndo embaixo daquela chuva. Ao invés disso resolvi escrever. Para ela.
Em tempo, Lydiane, hoje, mora em Florianópolis.

Em Dezembro de 2008, formou-se, em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Lydiane Takimoto, a temporã da nossa família. Agora, com menos de um mês de formada procura empregos em todos os cantos do Brasil e cada dia nos atemoriza com as novas propostas que anda recebendo. Ora vindas do Oiapoque ora do Chuí. Uma coisa é certa, não vê beleza e nem futuro na Cidade Maravilhosa. A minha cara, ao ouvir por telefone a voz empolgada da caçula ao receber uma nova oferta de Chapecó, deve ser a mesma que faço agora ao olhar pela janela essa chuva acompanhada de muito vento que não pára de cair nos meus últimos dias de férias na casa de praia. Fico assustada com a coragem e ousadia de minha irmã em transformar algo que pode ser tranqüilo e pacato como o fluxo de um rio (e até mesmo da própria vida) em algo agitado e temeroso como a aproximação de um tornado.

Lydiane nasceu quando Tony, até então possuidor do título de caçula da casa, tinha dez anos; eu, recém chegada à adolescência e fazendo com que o ingresso no ensino médio durasse um pouco mais do que o planejado por meus pais, estava com treze e Tata, a prodígia, fazia pré-vestibular com seus quinze aninhos. Mamãe já passava dos quarenta e por uma forma que todos já sabem como acontece, engravidou.

Não me lembro de ter ouvido da maioria das pessoas, ao receber a notícia de que a família aumentaria, uns parabéns verdadeiros. Percebia que muitos se espantavam e esperavam uma atitude diferente da que minha mãe resolveu tomar. Havia quem verbalizasse isso sem ter a sensibilidade de que crianças pudessem estar ouvindo. Pensa bem, Ruth, você já tem três filhos perfeitos...arriscar pra quê? Eu ficava observando o rosto de mamãe ao ouvir esse tipo de gente que brinca de ser Deus (ou o Diabo) e em nenhum momento percebi (embora, por curiosidade, sempre procurasse) sinal de dúvida naqueles olhos verdes. Reencontrei essa firmeza em mim, sete anos depois, quando as mesmas pessoas se espantaram da mesma forma ao ouvir que eu, solteiríssima e no meio da faculdade, estava grávida. Hoje, já se arrependeram ao olhar para meu filho mais velho e dizer nossa!como ele cresce rápido! Você queria que eu o matasse, se lembra?, esta é a minha impaciente resposta para a hipocrisia. Mas isso já é uma outra história ...

Lydiane não foi mais uma, pelo menos essa foi a sensação que tivemos quando ela entrou pela primeira vez em casa nos braços de mamãe. As risadas, que já ouvíamos, foram multiplicadas por um número que não era dois e ela não ocupava um cômodo só da casa como fazem os seres humanos que se restringem ao seu corpo. Para quem pensa que estou me referindo a brinquedos ou bagunça de uma forma geral, digo que essa não é a única maneira de ultrapassarmos nossos limites. Lydiane não causou desordem na casa. A caçula ocupou espaço porque todos lá de casa pensavam principalmente nela. Se saíssemos, ela ia junto de uma forma ou de outra. Ou ao nosso lado ou dentro da gente.

As coisas se sucederam mais ou menos dentro do esperado pelos meus pais. Novos endereços e telefones residenciais foram naturalmente aparecendo. Tata, a mais velha, arrebentou o cordão umbilical de tanto esticar. Foi parar em Florianópolis, a primeira cidade que conseguiu emprego, e mudou até de sobrenome (atitude essa, para mim, lastimável pois é análoga a um animal tendo o seu coro marcado pelo novo dono). Eu, primeiramente, consegui adicionar um complemento ao endereço antigo. Fundos. Hoje ainda divido o mesmo CEP mas já tenho que calçar sapatos para ir à casa de meus pais. Tony, praticante de esportes radicais depois dos trinta, já quebrou a perna, já moeu o punho e bate bem a cabeça a ponto de ficar temporariamente mais desmemoriado quando vê o chão se aproximar rapidamente de seu nariz. Morou sozinho uns tempos na Freguesia, casou-se com Luciana e hoje dividem a infértil ilusão de que já tem um filho. Uma kalopsita que não canta como o Elvis mas que atende pelo nome do saudoso e completo artista, entrou para nossa árvore genealógica.

Lydiane acompanhou essa saudável diluição familiar em cada fase de sua vida. Na infância viu-se sem mais a necessidade de ter sua cama montada quando fosse dormir. Tata, quando foi morar no Sul, deixou de herança para Lili o local da casa em que mais se deitava. Na adolescência ganhou um quarto só para ela quando, ao me casar, passei a dormir numa cama bem maior e confortavelmente bem mais apertada. No início da vida adulta, já com carteira de motorista, ela acompanhou a transformação do quarto do Tony em quarto de hóspedes e esporadicamente, o aposento servir como local de estudos dos seus sobrinhos mais velhos. Viu assim, de uma forma que não se vêem com os olhos, a casa que sempre teve os mesmos metros quadrados ficar maior.

E, de várias, o curso da vida (marcado pela renovação dos modelos dos porta-retratos que ficam em cima do piano ainda hoje tocado por mãos infantis) a transformou numa só que se agiganta em sua unidade. Ainda há pouco, Lili, por telefone, me mostrou o novo ângulo, cada vez maior, formado pela junção das duas hastes que limitam o leque que segura tremulante. O meu voto é que vá, já que quer ir para algum lugar, para Florianópolis. Assim, com uma só passagem é resolvido o problema dolorido da saudade para aqueles que ficam. Mas ela nem me ouve. A cada proposta, independente de onde venha, pensa (!) a respeito.

No fundo eu sei que depois de uma chuva com muito vento, o Sol sempre aparece. Mudei rapidamente o foco que estava no infinito e percebi um sorriso refletido no vidro da janela que me protege da água que cai lá fora. Mesmo que as minhas férias tenham acabado e eu não possa mais curtir o calor dessa estrela, outros o aproveitarão no meu lugar.

Já com saudades

Elika Takimoto

terça-feira, 21 de abril de 2009

Viagem à Sampa

Essa história, que ocorreu em meados de 2008, foi uma busca desenfreada pelo caminho correto a seguir após uma certa etapa de minha vida ter sido concretizada. Quando concluí meu curso de mestrado, portas, como dizem, realmente se abriram. Mas essa história não é sobre portas. Essa história é sobre pequenas janelas.

Capítulo 1


Estou tentando ingressar num doutorado. Eu tenho noção do peso desse título, com certeza deve ser algo com muito mais sustância que um curso stricto sensu de dois anos mas o que não imaginava era que a entrada fosse tão complicada e que me rendesse tantas histórias como essa que, sem dúvida, foi a melhor coisa que consegui com meu título de mestre.

Para começar, e para que quem nunca passou por isso entenda minhas razões, vou explicar: existe uma coisa que temos que fazer chamado projeto de tese. Nesse projeto temos que detalhar o que será trabalhado nos próximos quatro anos, como será trabalhado, o que será lido, o que será desprezado, o por quê de ser desprezado ou não, em quais fundamentos teóricos nos apoiamos para escrever cada linha, nome de todos os livros que teremos que ler... Além de tudo tem que ser um estudo inédito. Enfim, um troço de doido.

Ao ler o edital e inteirar-me do que vinha a ser esse tal projeto de tese, minha mente foi apossada de pontos, muitos pontos de interrogação que rapidamente se fundiram em um só, com um forte status filosófico, antecedido pelas seguintes palavras: É possível saber, com precisão, o que vou fazer nos próximos quatro anos de minha vida? Demorarei vinte, trinta, quarenta anos para descobrir! A segunda, não menos inquisitiva que a primeira, de trezentas e oitenta e sete perguntas que fiz a mim mesma foi: O que eu posso pesquisar pelos próximos quatro anos que ninguém nunca pesquisou? Não faço parte de nenhuma equipe de cientistas procurando a cura da aids, a vacina da dengue, o bóson de Higgs... será possível, para uma pessoa normal como eu, conseguir um honroso título de doutor em 2012? Não sou de desanimar frente às dificuldades que a vida teima em impor nos caminhos sem asfalto e sem luz que já costumo andar durante o dia. Acontece que agora tem um buraco imenso de sete metros de diâmetro que preciso pular. Olho para os lados e não consigo enxergar nada que sirva de material para eu construir uma ponte, lamentando não possuir o talento de Maurren Maggi.

Comecei a fazer um trabalho de investigação minucioso na Internet para descobrir o que pessoas de meu modesto nível intelectual estudam para ser doutores. Busquei títulos das últimas teses de doutorado defendidas pelo mundo afora. Apenas citarei o que li e reservo-me omitindo o que senti ao deparar-me com “O Contributo da Cultura de tomilho, entre douro e minho, para o estabelecimento do povoado de Mondim de Basto” ou “As Diferenças Demográficas entre o Samouco e A-da-Velha, entre 1320 e 1370”, “Problemas de Percepção e Raciocínio dos Antigos Adolescentes de Almada, que Estudaram na Secundária de Cacilhas, Bebiam “Submarinos” e Amêndoa Amarga, Ouviam The Doors e Usavam Calças Pretas”, “Estimação de Caudas Pesadas - Variantes ao Estimador de Hill”,“Estudo Morfológico dos Otólitos Sagitta, Asteriscus e Lapillus de Teleósteos (actinopterygii, teleostei) de Portugal Continental - Sua Aplicação em Estudos de Filogenia, Sistemática e Ecologia”, etc etc e tal. Respirei na esperança que a entrada do oxigênio não viesse acompanhada de uma certa falta de credibilidade no recipiente daqueles pulmões. Parece razoável. Falei baixinho tentando me animar. Comecei a olhar para o lado e testar meus limites. Meu filho mais velho estava tocando guitarra no quarto ao lado do escritório onde costumo ficar escrevendo, estudando, lendo, corrigindo provas, pesquisando, idealizando projetos... sempre acompanhada de uma xícara de café com bastante açúcar que tem amarelado meus dentes, principalmente os caninos, mas que espanta o sono que sentem todos aqueles que acordam às cinco e meia da manhã. A xícara estava já vazia, apenas umedecida do líquido que sempre resta mesmo que tenhamos a sensação de ter ingerido tudo. O copo sempre nos rouba algumas gotas. E roubando da xícara a pouca cafeína que ela sempre subtraía de mim, estava um batalhão de formigas se movendo em fileiras atrás do açúcar, certamente em quantidade bem generosa, decantando no fundo daquela pequena vasilha de uma asa só. Impulsionada por uma visão mediúnica recebendo meu título de doutora em 2012 falei novamente baixinho “A Reação das Fêmeas da Hymenoptera Vespoidea à freqüência sonora de 130dB na Zona Norte do Rio de Janeiro”. Já era uma pesquisa inédita realizada em Madureira. Acho que ninguém havia pesquisado no subúrbio carioca se as formigas trabalhavam melhor ouvindo rock. Mesmo que o resultado não demonstrasse que as Hymenoptera Vespoidea não emanavam emoção alguma já era um avanço para a ciência. Uma descoberta.

É claro que essa experiência não passou de um treino. Após uma longa leitura de artigos em revistas disponíveis da Internet na área de física, fixei-me, finalmente, em algo que gostaria de pesquisar. Próximo passo: encontrar um bom e paciente orientador que guiará meus passos nos próximos quatro anos. E que, certamente, me ajudará a fazer o projeto de tese já que eu não tenho a menor capacidade de detalhar com precisão o que farei na semana que vem. Essa parte da história durou meses. Não cabe detalhar a quantidade de emails trocados e de visitas às universidades cariocas que finalmente me levaram ao encontro do que considerei ser meu bom e paciente orientador que após concordar em fazer parte da minha vida por um bom tempo disse, traduzido num português claro, para eu me virar e fazer o projeto de tese sozinha. Caso o projeto fosse aprovado, ele teria prazer em me orientar. Nesse momento senti novamente frente ao buraco na estrada. Só que agora eu estava coberta de dejetos humanos.

Respirei. Agora me esforçando para que o gás carbônico levasse junto todo meu desespero. Se é para me virar sozinha então vamos lá. Mandei um email, sem pretensões, para o autor de muitos artigos que havia lido em revistas eletrônicas, elogiando o conteúdo dos mesmos. Descobri que o autor era um professor simpático da USP, cheio de boa vontade em responder a todas as minhas dezessete perguntas e feliz por eu me inserir na sua linha de pesquisa. Após uma coragem que tem somente aqueles que estão sós e desesperados no mundo, pedi socorro à um ilustre e, pelo currículo lattes, sábio desconhecido. Sim, é preciso ter coragem, ser forte para expor suas fraquezas. Disse que não sabia como fazer o projeto e ele se propôs a me ajudar, com o maior prazer, mas só poderia fazê-lo pessoalmente. Lá na USP. Era só eu ir até lá.

O buraco já não tinha mais sete metros. Eu não via mais aonde ele terminava. Talvez em São Paulo. Na estrada sem asfalto e sem luz por onde nunca andei a noite, fui obrigada a andar sob a luz fraca das estrelas e a sentir o cheiro da escuridão. Dando aula todos os dias, com três filhos, marido embarcado... como ir a São Paulo???? Enfim, após tantos cuidados, desanimei. Como nunca havia desanimado.

Capítulo 2

Estava na hora do recreio e um amigo que acompanhava por alto essa história toda, também professor de física e já doutor na área, se sentou ao meu lado na sala dos professores e me perguntou como andava o projeto. Expliquei tudo a ele. Desânimo total. Após ouvir o meu relato detalhado adquirido pela prática de doze anos no magistério com a paciência de um aluno bom e educado, ele concluiu em forma de pergunta o que qualquer retardado mental concluiria. Ah, então só falta você ir a São Paulo? Respondi como nunca se deve responder a ninguém tamanha era minha aflição e, com uma clareza infantil, no melhor dos sentidos que essa palavra agrega, ele me perguntou em seguida quando eu ia. Comecei, procurando manter a calma, a apontar os obstáculos que foram sendo, um a um, rapidamente derrubados, por esse amigo-doutor, com a destreza de um ninja, desses que vemos em desenhos animados. To-dos os obstáculos foram derrubados por Sérgio Duarte. O maior derrubador de obstáculos de todos aqueles que precisam ir a São Paulo buscar ajuda de um professor da USP para fazer um projeto de tese. Sérgio se ofereceu para dar aula no meu lugar, lembrou que minha mãe morava ao meu lado e que ficaria com as crianças sem problemas. Lembrou que seria apenas um dia, no máximo dois. Dito assim, parecem somente dois empecilhos, o trabalho e as crianças, mas sabemos, desde a época de Copérnico, que dependendo do referencial vemos coisas completamente diferentes e que as palavras, dependendo como são ditas, têm o poder de mudar as cores dos objetos que nos rodeiam. Nesse caso, após ouvir Sérgio, tudo ficou branquinho.

Sem ir até o aeroporto meu amigo me colocou num avião fazendo com que eu visse o tal buraco grandão, que tanto me incomodava, lá do alto. Só o que ele não fez, já que era demais, foi fazer reservas, para mim, em algum hotel lá. Na terra da garoa. Isso eu conseguiria fazer sozinha, é claro. Quer dizer, eu achava que conseguiria.

Assim que entrei em casa, liguei o computador, respondi ao professor paulista dizendo que ia, comprei as passagens e mandei um email para um hotel, indicado pelo próprio catedrático que me ajudaria no projeto, fazendo, assim, a reserva como o próprio site recomendava. O hotel fica bem em cima da estação Paraíso, ele escreveu. De lá era só pegar um metrô para Vila Madalena, depois um ônibus para Rio Pequeno e descer assim que entrasse no campus da USP. Tudo combinado, chegaria quinta bem cedo e voltaria sexta à noite. Acertei tudo com minha mãe já que meu marido estava embarcado e não poderia me ajudar com as crianças. Responsabilidades que só os adultos possuem.

Era segunda feira e desde então não dormi direito sendo incomodada por pesadelos que me lembravam que seria a primeira vez em trinta e cinco anos que viajaria sozinha e dormiria sozinha. Sempre dormi na companhia de algum irmão quando era solteira ou do meu marido e quando ele viaja todos os meus filhos dormem comigo. Eles se sentem mais seguros. Coisas de criança. Na quarta feira, véspera da viagem, acordei sobressaltada às quatro da madrugada lembrando que não havia recebido uma resposta sobre a reserva. Às cinco da manhã liguei para o hotel e perguntei se haviam recebido meu email. Uma mulher respondeu que não havia mandado resposta porque não havia vagas para esse dia. Cinco e meia o despertador toca e antes das sete já tinha que estar na escola. Precisamente no CEFET. Sem tempo para resolver esse pequeno problema de onde dormiria numa cidade que nunca fui ainda mais sozinha, pois, daria aula quase o dia inteiro, mantive a postura que cabe aos professores que teoricamente são munidos de muito mais conhecimento, experiência e até sabedoria que seus alunos.
No intervalo de uma aula e outra, andando pelos corredores para mudar de turma, encontrei um aluno e lembrei que suas perguntas durante as aulas sempre vinham acompanhadas de um sotaque horroroso que só poderia ser paulista. Não acho que fica bem dizer o nome todo dele. O primeiro nome é Pedro, como tantos que conhecemos na vida. Para disfarçar o sobrenome só posso dizer que começa com Win e termina com ter, como esse que conheço. Carregada de uma alegria que sentem as mães quando parem um filho perfeito, dei um agradável bom dia e abracei fortemente Pedro. Mas me diga, Pedro. Você é de onde mesmo? Ah, sabia, São Paulo! Que maravilha! Conhece tudo lá, né? Me diga, então, o nome de um hotel que fica perto da USP... E o diálogo que se seguiu poderia ser a música de fundo de um filme de terror. Onde vemos o chão se abrindo, as nuvens escurecendo e se acumulando rapidamente num céu que se aproxima da cabeça dos personagens que gritam histericamente de medo.
- Sei lá, professora. Não conheço nada lá não.
- Como não? Que tipo de paulista é você?

- Do tipo que se mudou há muito tempo para o Rio. Quando ainda era criança.
- ...

- Mas porque você queria saber isso, professora?

- É que eu vou pra lá amanhã cedo e acabei de me certificar que o hotel que estava pensando em ficar não tem vaga.

- Mas você não fez reserva????????

Blá, blá, blá... contei-lhe a história toda do email...

- Mas porque você não ligou antes???? Só ligou hoje?!?
- Sei lá, a porcaria do site tinha um botão escrito “reserva por email”, eu cliquei lá e achei que estivesse tudo certo.

- Olha, professora, eu te desejo sorte, muita sorte mesmo. E admiro uma professora de física, cheia de raciocínio lógico não conseguir se preparar com antecedência para uma viagem a uma cidade como São Paulo.

- Pedro, você não está me ajudando. Aliás se você não quiser me ajudar não tem problema, eu sou adulta está me entendendo, vou resolver isso agora mesmo!
- Como, professora? Como? Você conhece São Paulo? Sabe que São Paulo é uma referência mundial? Tem noção do tamanho de São Paulo???
- Vou ligar para minha mãe. – E comecei a apertar os botões do meu celular.

- Olha, professora, boa sorte. Porque se fosse eu a ligar para minha mãe dizendo que viajaria para São Paulo amanhã e não fui capaz de fazer reserva num hotel a minha mãe me mataria. Espero que a sua seja mais paciente que a minha com essa sua tamanha falta de responsabilidade.

Enquanto Pedro tagarelava com aquele sotaque paulista inútil, liguei para Dona Ruth. Alô, mãe? Sabe aquela viagem que vou fazer amanhã? Papapá tititi. Contei a história toda do hotel, do email... nos dois minutinhos que me restavam. Mamãe, munida de um dom que faz com que ao ouvi-la, ter a sensação de ter tomado uma caixa de lexotan, disse que ia resolver para mim, para eu me acalmar e ligar para ela no próximo intervalo. Fui dar outro tempo de aula não sem antes sorrir triunfante para Pedro, afinal, minha mãe era bem mais legal que a dele.

Dona Ruth acabou ligando para uma prima japa do papai que mora lá. Papai tem uns primos que vê uma vez na vida e outra na morte sendo que nessa vez na vida que ele os viu eu não era nem zigoto. Ela lembrou deles porque havia recebido um convite de casamento de Vitor, o filho dessa prima de papai, que vai se casar agora em outubro. Assim que começou o recreio retornei a ligação para ver o que mamãe havia conseguido. Elika, ouvi do outro lado da linha a voz do lexotan, a Kasuko disse que mora ao lado da USP e ofereceu a casa dela para você ficar lá. Engraçado, o som do outro lado da linha não estava me acalmando dessa vez... Ka o que, mãe? É mulher isso? Mas, mãe, como eu vou ficar na casa de alguém que nunca vi na vida, que não sabe nem o nome do meu marido e quantos filhos eu tenho? Eu só queria um nome de um hotel num bairro próximo, aliás, eu queria saber os bairros que são próximos porque eu não tenho nem idéia...só isso! E estou sem tempo de fazer uma pesquisa na Internet! Ela foi educada, mãe, ela só ofereceu por educação, ninguém vai querer uma desconhecida dentro de casa! Olha aqui, minha filha, a hora que você chegar liga para ela e fale direto com ela e explique tudo direitinho então. Mas não estou vendo muita opção para você agora não. Você tem noção do tamanho de São Paulo?

Ao voltar para a sala de aula, tentando manter a segurança que confere a um professor de física, Pedro, sem saber dessa última conversa com mamãe, chegou pertinho de mim e perguntou se poderia espalhar aquela história para todo mundo ou se eu ficaria envergonhada. Quem me conhece sabe que não acredito em Deus, mas no diabo...até conversamos outro dia, pouco antes dessa viagem.

Enfim, dei aula durante toda a manhã, almocei, andando, um sanduíche e no início da tarde fui ao dermatologista que estava marcado há dois meses atrás para verificar se as minhas sardas diminuíram depois de tanto ácido que ele mandou colocar. Após verificar que não e ser encaminhada para um tratamento a laser voltei para casa. Liguei para a tal de Kasuko e expliquei bem o que queria. Disse, educadamente, que não queria incomodar ninguém. Ela me perguntou, também muito cerimoniosa, se eu conhecia alguma coisa lá e após constatar que estava falando com uma pessoa, tipo assim, sem noção, ela riu, como riem os que não acham graça, e perguntou-me se eu tinha idéia do tamanho de São Paulo.
Nessa altura do campeonato, eu tive medo. O mesmo medo que senti quando, aos sete anos, ao voltar da padaria com o pão e uma bananada, um mendigo se aproximou de mim carregando tudo que tinha numa trouxa. Eu pensava estar de frente com o homem do saco. Só que agora eu não tinha mais pão e bananada para largar no chão e nem calçada para correr. Eu tinha que pegar um avião e descer numa cidade bem grande, muito grande mesmo!!!

Kasuko ainda me lembrou que dentro daquela área moram quase doze milhões de pessoas e em seguida reforçou que ela mora ao lado da USP e que se eu a incomodasse seria um dia só. Em suma, uma simpatia a prima Kasuko. Acabei ficando sem jeito e aceitei a estadia muito sem graça. Então tá, prima...separa o sofá que amanhã estou chegando!

Capítulo 3


O avião saiu do Galeão com uma hora de atraso, tempo chuvoso e o aeroporto de Guarulhos estava fechado. Escolhi Cumbica porque, como já verificado por todos que leram os capítulos anteriores, não tinha a menor noção do tamanho de São Paulo. Para mim era tudo ali, pertinho. E depois, Congonhas não me trazia boas recordações, pois, por incrível que pareça, eu assisto alguns noticiários e sou altamente antenada com alguns lances.
Durante toda a viagem aproveitei para ler o restante dos artigos que havia selecionado sobre o assunto que seria discutido com o professor paulista. O avião aterrissou às 8:00h, peguei um ônibus que saía 8:20h para Jabaquara, lá chegando peguei um metrô até a estação Paraíso, depois peguei outro metrô em direção a estação Vila Madalena, depois um ônibus para rio Pequeno e desci por volta de 10:20h na USP. Tudo isso estava escrito num papel que guardava, com cuidado, no bolso da minha calça. Não coloquei na bolsa com medo de roubá-la e ter que ligar de lá para a minha mãe, cuja função nesses dois dias em que eu estivesse fora, era cuidar das crianças, afinal, eles são ainda super dependentes e não conseguem fazer nada sozinhos.
A cada parada olhava disfarçadamente o papel e ficava procurando o próximo destino nas placas colocadas bem lá no alto, sendo toda hora esbarrada por alguém cheio de pressa. Senti-me um próprio imigrante nordestino que chega numa cidade grande (no caso, muito grande mesmo) com uma mala leve, preenchida muito mais pelo peso da esperança de conseguir ali uma vida melhor do que pelas suas parcas roupas. O imigrante, cinematograficamente, dá, lentamente, uma volta completa em torno de si mesmo na tentativa de captar com aquilo que vê a direção certa do novo passo que será dado a seguir. Pouco antes de completar os 360 graus dessa clássica volta, ainda na estação Jabaquara, comecei a questionar onde estariam os outros dois milhões de habitantes. Por alto, havia contado uns dez milhões, sendo que grande parte dessa quantia estava nas filas.

Estava extremamente ansiosa pelo encontro com o professor. Não queria aparentar desespero, característica dos que têm inteligência duvidosa. Porém, lamentavelmente, estava desesperada para ver se todo aquele meu esforço renderia doces frutos. Ao chegar à USP procurei uma biblioteca onde pudesse analisar as teses de doutorado dentro da área que estava animada a pesquisar. Lá fiquei, na companhia de grandes idéias, saindo apenas para buscar, também, um companheiro para meu estômago que de repente começou a sentir um vazio comum à solidão. Só parei de ler quando o ponteiro do relógio me disse que havia chegado a hora de ir.
O encontro ocorreu, pontualmente, às 14:00h. No caminho da biblioteca até a sala do professor localizado no instituto de física, procurei me acalmar testando o nível do meu preconceito. Como será que era, fisicamente, o homem que encontraria em minutos? Gordo? Magro? Não havia ouvido a voz dele e muito menos visto uma foto. Só li um punhado de coisa que ele havia escrito. Tentei lembrar de como ele escrevia, de como foi atento e solícito, do estilo educado e cerimonioso, do currículo Lattes... Era só montar esse abstrato quebra cabeça usando, como guia, conceitos formados antecipadamente sem a menor ponderação. O cara é nerd, sério e muito bonzinho. Deve ser magrelo, alto e branco azedo com certeza. Bati na porta. Olá, sou a Elika. Batata. Minha opinião formada, sem se levar em conta fatos que a contestem, foi perfeita. No final do nosso encontro pensei comigo “Uau! Que físico!”, certamente me referindo ao intelecto do mestre.

Vencidos pelo cansaço, ao final de 5 horas discutindo tudo o que eu havia lido e tentando montar o projeto, ele ainda me deu uma carona até o ponto de táxi. Uma gentileza sem tamanho, tão rara, infelizmente, nos dias de hoje. Marcamos um novo encontro pela manhã do dia seguinte, para fechar alguns tópicos que requeriam um certo amadurecimento. No final do dia estávamos raciocinando como aqueles que falam em aparelhos celulares caros nas ruas do Rio de Janeiro.

A ansiedade que senti ao sair daquele táxi e procurar a casa da prima Kasuko já na rua em que ela mora, só se comparou a que senti no dia 26 de setembro de 2006, na véspera do nascimento do Yuki, meu filho mais novo. Foi o único parto, dos três que já fiz, agendado com antecedência para que, juntamente com a felicidade de ter um filho tivesse, também, a dolorosa certeza de que nunca mais poderia ter outro.

Antes de sair do Rio pedi para que mamãe me falasse o nome de vários outros primos do papai. Não falei direto com papai porque mamãe é que freqüenta muito mais minha casa para me ajudar com as crianças e eu estava sem o menor tempo de visitar papai antes de viajar. Queria nomes de pessoas da família para ter assunto na hora da janta e mostrar para eles que não era tão estranha assim. E Midori, tem visto? Como anda Fukui? Mitiko melhorou? Coisas assim...que justificariam, de alguma forma, a minha estadia naquela casa. Perguntei também à mamãe sobre a família da Kasuko, a resposta de mamãe foi vaga. Disse que Vitor vai se casar agora, em Outubro, e mudou de assunto rapidamente falando que a mãe da Kasuko estava com 95 anos e morava com ela agora. Isso, não soou bem como uma novidade já que nem sabia que dona Kanako ainda estava viva.

Estava andando pela rua segurando o mesmo papel, que serviu como uma bússola durante toda a viagem, olhando, dessa vez, o número das casas. Havia um rapaz mestiço abrindo o portão da garagem. Ele ficou, alguns segundos, me observando e, de repente, fez uma pergunta, a mesma que meu marido havia feito quando apareci sambando na frente dele experimentando a fantasia de abelha, preparada especialmente para brincar no Cordão da Bola Preta, no carnaval de 2003:
- Elika???
Demonstrando já intimidade, respondi munida do mesmo tipo de dúvida:
- Vitor???
- Não, Alexandre!

Que Alexandre, jesuis, que Alexandre... Mamãe não falou nada desse tal de Alexandre...

- Tem algum Vitor nessa casa aí?

- Tem sim! Meu irmão! Entra aí! Nós estávamos te esperando.
Mamãe havia sonegado informação. Ela sabia que eu jamais aceitaria o convite se soubesse que Kasuko tem três filhos homens. Todo o meu sábio plano que colocaria em prática na hora em que estivesse dentro daquela casa, foi fadado ao fracasso com aquele diálogo. Vou matar mamãe. Foi a última coisa que pensei antes de receber o forte abraço da prima.

Capítulo 4


Como pode alguém se sentir em casa no meio de pessoas que nunca viu? Como pode nos sentirmos confortáveis sendo abraçados por ilustres desconhecidos? Como pode dois cachorros não rosnarem para um estranho que invade a casa de seus donos? Será que a explicação está no fluido escarlate que circula por todo meu corpo? Que bem estar foi todo aquele que senti ao entrar num lar que nunca havia entrado ?
Após o forte abraço recebido da prima Kasuko, fui convidada a entrar e tão logo conheci Dona Kanako, a obátchan (vó em japonês). Alexandre eu já havia conhecido. Eu o confundi com Vitor, logo na chegada, que até então eu imaginava que fosse o filho único da casa. Aos poucos, o restante da família foi chegando do trabalho. Fui apresentada, então, ao Cláudio, o filho do meio de Kasuko que está fazendo residência em psiquiatria. Lá pelas oito chegou Nelson, o marido da prima. Um homem muito alto visto do meu referencial! O único brasileiraço dali. Uma presença que me inibiu um pouco e cortou aquela onda d’eu “estar em casa”. Vai entender... E logo depois chegou o Vitor, o caçula e que ia se casar em breve. Enfim, a família toda reunida e eu, a prima carioca maluca que ia passar a noite ali com eles. Ah sim! Antes de conhecer todos, fui devidamente fungada por Java e Tobias que permitiram, sem muito barulho, a minha entrada naquela morada.
Oito e meia estávamos comendo um delicioso estrogonofe feito pela própria prima e eu, falando pelos cotovelos contando as minhas novidades como se eles já soubessem de todo meu passado. Eu não parava de falar porque eles não paravam de perguntar. Certamente estavam curiosos para saber como eu caí, sem pára-quedas, ali dentro. Havia falado com Kasuko no dia anterior e nem havia dado tempo dela explicar quem eu era para toda a família e por que eu dormiria naquela quinta à noite com eles. Na verdade, creio que nem ela estava entendendo direito. Enquanto proferia, não pude deixar de observar que Nelson não comia. Ao invés de se servir como todos, ficava picando frutas e ajeitando os pedaços de forma organizada num prato. Picou manga, melão, banana...tudo bem picadinho. Pensei que fosse dieta, mas mesmo assim, estranhei o fato de picar tudo tão pequenininho. Colocando meu preconceito em prática, comecei a julgá-lo um homem fresco. Porque ele não comia banana feito um homem grande que é o que ele realmente era? E a vida se encarregando de sua tarefa de fazer de cada momento um capitulo a ser aprendido e levado para todo o resto que dela sobrar, guiou, após alguns minutos, os meus olhos à mão estendida de Nelson para dona Kanako, que adora frutas de sobremesa mas não tem mais a paciência de descascá-las para comer.
Após a janta, ainda conversamos muito. Queria saber todos os detalhes da vida dos meus primos, quem namorava, porque o Alexandre não casou e nem se formou, porque Cláudio quis lidar com maluco o resto da vida, queria saber da noiva de Vitor, se Kasuko aprovava a futura nora, enfim, conhecê-los de uma forma estritamente feminina. No meio de uma conversa profunda com Cláudio sobre ritalina, fomos interrompidos por Alexandre que me perguntou se eu sabia falar japonês, pois obátchan me chamava, lá na sala, e ela misturava os dois idiomas sem sentir. O único japonês que mal entendo é meu pai e a presença de Alexandre se fez necessária com o diálogo que travaria com dona Kanuko que fez, nesse mês de novembro, 95 anos.
Dona Kanuko veio ao Brasil para casar, por procuração, com o irmão do pai do meu pai, meu avô japonês que morreu na segunda guerra. Essa parte da história da vida de papai é muito triste. Papai sempre lamentou existir guerra no mundo, sempre disse que nada a justifica . Antes da guerra, ele possuía uma família, vivia bem lá no Japão, meu avô sempre foi muito presente na vida dos filhos e se dava muito bem com vovó. Final da guerra declarado, eles, que estavam morando na Coréia que era, até então território japonês, com a vitória dos coreanos, tiveram que fugir às pressas para o Japão como puderam. Primeiro mulheres e crianças nos navios que lhe restaram, depois os homens. Foi nessa que vovô ficou. Virou prisioneiro de guerra e a família do papai se desfez. Vovó não conseguiu ter estrutura emocional para criar papai e mais duas filhas e acabou entregando as crianças para outros irmãos do vovô criarem. Nessa época papai tinha 7 anos e teve que amargar ver sua família destruída e a morar num país em ruínas, onde foi apresentado a fome, a saudade e a dor de saber que seu pai foi assassinado pelos coreanos.
O marido de dona Kanuko, irmão de vovô, veio morar no Brasil bem antes da guerra começar. Papai só veio depois de se formar em engenharia, aos 27 anos de idade sem saber falar um oi em português. Veio, como dizem, com a cara e com a coragem. Além da cara e a coragem, no meio de sua bagagem, havia uma única foto que ele tinha desde criança do pai dele. Se tiverem curiosidade de saber mais da vida de meu pai, ele escreveu há pouco tempo esse pedacinho da história de como foi a vinda dele para o Brasil. Essa fração da vida dele está postada nesse site: http://japao100.abril.com.br/perfil/884/.
A conversa com Obátchan encerrou rápido. Ela gostaria de saber sobre parentes japoneses e eu nada sabia. Nem sabia que ela mesmo existia...inventei algumas respostas mas o que eu achava que fosse realmente importante para ela, eu dizia que não sabia.
Fui dormir tarde, fiquei conversando com Cláudio, que é especialista em malucos, até altas horas. Sabe Deus por que ele me deu tanta atenção...

Penúltimo Capítulo



A noite transcorreu como esperava. A ansiedade não me deixava dormir desde o início da semana onde, até então, pensava que fosse dormir sozinha num hotel em São Paulo. Coisa que não faço há 35 anos, a dizer, pegar no sono sem alguém por perto. Se soubesse que dormiria com Tobias não teria ficado tão ansiosa. Longe, naquele momento, da adrenalina ter baixado a ponto de me deixar num estado mental que me permitisse relaxar. Os meus pensamentos aceleravam o meu coração e não havia nada que eu pensasse que diminuísse a freqüência dos meus batimentos. Meus filhos estavam longe de mim, minha mãe estava com meus filhos, portanto, longe de mim, meu marido estava embarcado, portanto, longe de mim... além disso, no dia seguinte voltaria à USP para conversar com o professor e depois teria a tarde livre para conhecer alguns pontos de São Paulo. Isso me apavorava. Nunca passeei sozinha em 35 anos. Que graça tem em ver algo interessante e não poder apontar para alguém? Sem contar que havia esquecido o remédio das lentes de contato e tive que dormir com elas. Minhas lentes são do tipo descartáveis. Uma noite de olhos fechados com elas não me faria mal, mas meus pensamentos me castigavam. Às vezes sonho que estou sem óculos e enxergo tudo embaçado. Será que se eu sempre dormir com as lentes esses meus pesadelos acabariam? No meio dessa avalanche de pensamentos, ora científicos ora puramente dotados de um estado afetivo de conotação penosa, adormeci. Sonhei que comia pipoca sozinha no alto de uma montanha.
Acordei com barulhos de carro saindo da garagem. Os meninos já estavam indo para a lida e o meu último dia fora de casa havia chegado. Após o café, Kasuko me levou até o ponto de ônibus. Ela mora bem pertinho da USP e não demorei dez minutos para chegar lá. Marquei com o professor às oito e cheguei pontualmente como meu pai falou que eu sempre deveria fazer. A conversa com o catedrático foi rápida, ficamos uma hora e meia discutindo o meu possível futuro acadêmico. Meu objetivo, com toda aquela viagem, havia sido alcançado. Recebi todas as devidas orientações e, enfim, o norte foi apontado. O ponteiro da bússola, que girava incessantemente antes desse encontro, parou. Eu agora estava certa e segura que seguiria na direção oposta da apontada pelo dedo indicador daquele simpático físico.
Andei pela USP para conhecer outras bibliotecas e resolvi seguir o conselho de alguns amigos e conhecer, mesmo sem nenhuma companhia, alguns lugares naquela cidade onde todos andam como se tivessem muito atrasados.
Quando falava para algumas pessoas conhecidas que iria a São Paulo, sempre recebia alguma sugestão de um lugar que deveria conhecer na terra da garoa. Os amigos nerds rapidamente fizeram a lista de alguns museus. Citaram a pinacoteca e o museu da língua portuguesa que deveria visitar. Imperdível, afirmou Sérgio Duarte. As amigas todas, surpreendentemente, foram uníssonas. Elika, não deixe de ir à 25 de março. Ai, amiga, que inveja de você. Se pudesse ia contigo! Lamentou Cláudia que já esteve lá e soube me orientar muito bem para eu não me perder. Entre em qualquer metrô lá, desça numa estação que tem nome de santo e se divirta por nós duas!
No final da manhã já estava seguindo meu itinerário turístico. Sozinha, como fazem os adultos bem resolvidos de cabeça. Entrei num ônibus, depois peguei um metrô rumo à estação da Luz. O museu de língua portuguesa fica bem em cima dessa estação. Soube disso pelo próprio professor da USP que garantiu a minha satisfação com esse passeio. Meu instinto acadêmico me disse para eu não perguntar, em seguida, como chegaria à 25 de março, mesmo porque as informações de Cláudia me pareceram muito precisas. Dentro do metrô, fiquei olhando aquele mapa das estações. Havia três com nome de santo: São Judas, São Joaquim e São Bento. O que não faltava era paulista em volta de mim para pedir informação mas, meu lado masculino não me permitiu perguntar nada para um desconhecido. Além disso, percebi que todos a minha volta estavam com fones no ouvido. Isso, com certeza, me inibiu bastante. E também, aquele cenário me fez filosofar sobre o conceito de proximidade e como sempre ocorre quando me meto na filosofia, fiquei assustada com as minhas conclusões. Desci do metrô e liguei pra minha mãe.
Lindo o museu da língua portuguesa, realmente imperdível. Ao sair dali, bem em frente mesmo, fica a Pinacoteca. Vi uns quadros do tamanho de telas de cinema! Na verdade, eu aumento para causar impacto mas acredite, eram quadros enormes! Chorei diante deles e das esculturas de mármores francesas expostas nos salões. Fiquei orgulhosa da humanidade produzir coisas tão belas. Passei a mão lentamente num rosto gelado de uma das esculturas e olhei para aquele rosto, com a mesma emoção que, certamente, os homens sentiram ao se deparar pela primeira vez com o fogo. Não havia explicação de como aquilo era possível. Bom ... rumo à 25 de março!
Perguntei a um guarda da própria pinacoteca e a estação, com nome de santo que queria chegar, era a São Bento. A próxima, logo depois da estação da Luz. Quando eu cheguei na tal rua, tive a impressão de ter chegado na China. Só quem é filho de japonês sabe diferenciar um conterrâneo de seus pais de um chinês. Só tinha china vendendo. Entrei num buraco lá, que parecia uma galeria, e só china! Bolsas Prada, D&G, Louis Vuitton, Puma, ... por qualenta, tlinta, ciento e tlinta leais! Uma bolsa de três mil custando ciento e tlinta! Quanto eu não economizaria, meodeos? Cadê minha mãe para segurar meu impulso consumista? Cadê meu pai para me lembrar o que é o certo e o que é politicamente incorreto? Cadê meu marido para me lembrar da quantidade de bolsas que tenho no meu armário e da quantidade de pessoas passando fome no mundo? Cadê a Cláudia para dividir essa alegria?
Já eram quatro horas da tarde, lembrei dos meninos da Kasuko me falando que o trânsito de São Paulo era uma coisa de doido. Saí correndo para o metrô novamente, mas agora estava segurando um sacão de plástico preto cheio...completo...pleno de alegria.
O avião na volta estava marcado para cinco horas da madrugada de sábado. Escolhi esse horário porque a diferença de preço era de trezentos reais para o horário das dez da noite na sexta. Não sabia que minha alegria, que coube dentro do saco preto, custaria quinhentos reais. Além disso, meus conhecimentos de geografia me permitiram acreditar, por um momento, que o aeroporto de Cumbica ficasse ao lado da USP. Quando falei para mamãe o horário que chegaria, ela, calmamente, disse que meu táxi ficaria mais caro que o avião. Esse foi um dos pensamentos que não me deixaram dormir direito de quinta para sexta e que me esqueci de citar lá em cima. Eu tinha que chegar no aeroporto com uma hora de antecedência e da casa da Kasuko ao aeroporto levaria meia hora, no mínimo, nesse horário sem trânsito. Alexandre, rapidamente, se prontificou a me levar, mesmo eu falando que não precisava, obviamente por educação. Essa hora, ele chegaria da night mesmo e faria essa viagem sem problemas.
A questão é que eu ficaria naquela casa mais uma noite. A noite de sexta feira e que pior! chegaria cedo à casa deles. Não seria como na noite anterior que cheguei na hora da janta praticamente. Eu estava me sentindo em casa, é verdade, mas com um certo receio de incomodar meus primos e o gigante do Nelson. Chegando cedo, Kasuko poderia querer fazer sala e eu poderia atrapalhar a sua rotina. Por outro lado, não havia mais o que fazer na rua, ainda mais carregando um saco do tamanho do saco do Papai Noel. Chegar também de mãos vazias? Como não lembrei de comprar nada para minha prima que me recebeu com tanto carinho e com estrogonofe? Pensei em dar uma bolsa que estava dentro do saco para ela. Mas dar uma bolsa falsificada? E depois, não sabia o gosto da prima. Mandá-la escolher, já que no meu saco havia todos os modelos, seria demais de feio. Acabei passando numa padaria e comprando vários pães bonitos, cheirosos e que faziam meu dedo indicador afundar, com facilidade, ao tocá-los.
Penúltimo Capítulo de novo...

Antes de começar esse capítulo gostaria de dizer que este ainda não será o último, conforme eu esperava. No entanto, quem acompanhou a história até aqui entenderá, agora, porque comecei o primeiro capítulo afirmando que a história que seria contada foi a melhor coisa que havia conseguido com o meu título de mestre. Após conquistá-lo, portas, como dizem, realmente se abriram. Mas essa história não é sobre portas. Essa história é sobre pequenas janelas.
Eram cinco horas da tarde quando toquei a campainha. Java e Tobias latiram pensando que fosse um desconhecido. Só estavam Kasuko e Obátchan em casa como eu temia. Meus primos ainda estavam trabalhando ou certamente, presos no trânsito. Entreguei os pães à prima e subi para tomar um banho. Sentei, depois, no sofá da sala junto com Obátchan enquanto Kasuko preparava a janta. O silêncio presente naquela sala era tipicamente oriental. A senhora japonesa me olhava e sorria com uma serenidade nipônica. Ofereceu-me, silenciosamente, um troço que parecia uma estopa, dessas de lavar carro. Era comida aquilo. Peixe desidratado e desfiado. A minha sorte é que não há nada nesse mundo que se coma que desagrade o meu paladar. Comi um bom pedaço daquela estopa seca e Obátchan acompanhava o movimento de meu maxilar sorrindo satisfeita.
De repente, munida de uma criatividade einsteniana, tive a idéia de pedir à Kasuko, que estava na cozinha, os álbuns de família. Seria uma forma d’eu conhecê-los mais ainda. Ver o passado das pessoas, mesmo que seja através de fotos, nos aproxima de uma forma única. Kasuko atendeu prontamente ao meu pedido. Trouxe para mim uns vinte álbuns e começou a se revezar entre olhar as panelas que estavam no fogo e as imagens que eram explicadas ao som do pretérito imperfeito.
Encontrei papai, magrinho e de cabelos pretos em várias fotos! Apontava onde ele aparecia para Obátchan, numa desnecessária tentativa de provar para ela que eu era da família. Tchitchi!Tchitchi!Tchitchi! Exclamava apontando papai novinho num retrato. Tchitchi significa papai em japonês. Essa é uma das cinco únicas palavras que sei do idioma da terra natal de papai, embora quase nunca a tenha usado. Obátchan fala português como os índios caricaturados nos filmes, mas fala. Agora com a idade, faltando apenas cinco anos para completar um século de vida, ela tem confundido os idiomas na cabeça e nem percebe que vai do Brasil ao Japão, várias vezes, numa mesma frase. O que eu não entendi foi porque eu, no auge de minha juventude, falei tchitchi ao invés de papai.
De repente, com a ajuda de sua bengala e falando coisas que eu não entendia, Obátchan se levantou e foi até o armário da sala. Pegou uns álbuns bem antigos e os trouxe até mim. Em português, ela me explicou que os álbuns eram do marido dela, o irmão de meu falecido avô paterno. Em japonês, ela explicou cada foto.
Eu só conheço o rosto de meu avô porque papai fez um quadro com a única foto que ele possuía do pai dele. Meu avô, nessa foto de papai, está sério e de terno. Os olhos puxados, por detrás daquele vidro do porta-retrato, sempre estavam atentos a todos nós lá de casa. Acompanharam, sem piscar num só momento, meu crescimento, o crescimento de meus irmãos e nós, retribuindo tamanha vigília, nunca nos esquecemos que tivemos um herói na família.
Ao virar uma página do álbum da Obátchan levei um susto. Vovô sorria para mim. Olhei para Obátchan e perguntei: meu Ditchan? Mas que diabos eu estava misturando os idiomas também?!? Enquanto Obátchan, com ajuda de uma lupa, olhava atenta ao que estava embaixo da ponta de meu dedo indicador, tornei a perguntar com a voz embargada. Hideo? Esse era o nome de meu avô e, hoje, também o nome do primeiro neto de papai, meu filho mais velho. Obátchan respondeu dizendo que sim com a cabeça e disse rai.
Reconheci meu avô em outras fotos. Havia, visivelmente, uma alegria de meu Ditchan por ter sido descoberto. O sorriso imediato que recebi de vovô, sem que ele precisasse falar nada, me fez entender porque meu pai o venerava. A cada foto que o reconhecia aumentava a minha compreensão, até alcançá-la de uma forma plena, de todo o discurso que papai sempre fez contra as guerras. A dor de papai era agora minha e de uma forma paradoxal, senti saudades de um vovô que nunca vi.


Último Capítulo

Papai nem sonhava que aquelas fotos existiam. Precisava levá-las até ele! Ele iria enfartar, novamente, quando as visse! Vou matar papai, pensei transbordando de felicidade. Ele faria aniversário em poucos dias e esse seria meu presente. Perguntei à Kasuko se eles tinham scanner, para poder levar as fotos sem depenar o álbum da Obátchan. Ela respondeu da cozinha que ter (...) tinha, mas só os meninos sabiam mexer.
Alexandre foi o primeiro a chegar mas diante o meu pedido, confessou que não sabia usar o computador direito. Sabia consertar várias coisas em casa, disse ele achando, certamente, que o julgaria mal. Mas, esse lance de informática, completou o primo, era departamento do Cláudio. Para minha felicidade, Cláudio não tardou a entrar e me prometeu que depois que jantássemos, ele me atenderia com prazer.
Diante de uma pergunta feita por Alexandre no jantar, o sonho que tive na noite anterior se justificou por completo. Sonhei, como já havia falado, que comia pipoca, sozinha, no alto de uma montanha. Alexandre, entre vários assuntos que conversávamos na mesa, me perguntou se eu não havia acordado com o cheiro de pipoca de madrugada. Explicou que Cláudio tem uns horários meio doidos, passa noites acordado lendo e estudando e sofre de uma deliciosa mania de comer essa iguaria enquanto estuda. Quanto à solidão e ao cenário do meu sonho, Freud já havia me explicado.
Cláudio cumpriu sua promessa e escaneamos todas as fotos em que reconheci vovô. Essas fotos, estão ilustrando o início de cada capítulo dessa história. O neném, que está no colo de meu Ditchan na foto desse capítulo, é papai. Minha irmã Tatiana, que mora em Florianópolis e está terminando o curso de designer, não perdeu a oportunidade de expressar sua delicadeza. “Limpou” as fotos e emoldurou todas elas de forma que o presente ficasse ainda mais bonito. Essa é mais uma das facilidades que a Internet nos proporciona. Consegui dividir toda a minha emoção com meus irmãos em tempo real, praticamente. Lydiane, minha irmã mais nova que está se formando em medicina este ano, sentiu necessidade de estar ao lado do papai quando ele recebesse o presente, acreditando que fosse colocar em prática alguns conhecimentos adquiridos na faculdade.
Minha segunda e última noite naquela casa foi a que me fez rever, de certa forma, a minha descrença em tudo relacionado à quinta dimensão. Não que eu tenha visto Deus, nada disso! E muito menos sentido a Sua presença. Ainda mais porque meu avô, um homem bom, foi assassinado injustamente e não dá para colocar Deus, pelo menos o das religiões ocidentais, nessa história. Mas confesso, que não estou conseguindo acreditar que tudo isso tenha sido fruto do acaso.
Cláudio passou o final da noite conversando comigo. Uma conversa daquelas que não vemos o tempo passar e de deixar saudades. Alexandre, o primo mais velho e solteiríssimo, chegou da night na hora que eu teria que ir para o aeroporto, conforme ele havia prometido que aconteceria. Durante o caminho até Cumbica percebi no primo, que falava fluentemente japonês, todos os trejeitos de meu irmão. Uma coisa assim de doido para completar todo esse resgate transcendente que me atirou para as minhas origens, como observou meu amigo Daniel Sasaki ao ouvir toda essa história.
Papai foi me buscar no aeroporto. Perguntou como havia sido a viagem e eu respondi secamente que foi boa. Se eu começasse a falar, como já devem ter percebido, acabaria falando demais. Então resolvi ser vaga. Ele entendeu que eu falei pouco por causa do cansaço da viagem e respeitou, como só ele faz, o meu silêncio. No meio da semana, papai veio me visitar. Faltavam alguns dias ainda para ele fazer aniversário. Perguntou se eu estava mais descansada e queria saber se meu objetivo foi alcançado com toda aquela viagem inusitada. Eu disse que sim e comecei, rapidamente, a me trocar para ir à academia dizendo que estava atrasada. Dei um beijo nele e disse que depois conversaríamos.
Finalmente, no dia 14 de Setembro peguei o álbum que havia feito com a ajuda da Tata, minha irmã que mora no sul, e levei até papai. Lydiane estava de prontidão, conforme o combinado. Papai demorou um pouco a entender o que seria aquilo e assim que percebeu me perdoou, com um simples olhar, o fato d’eu não ter dividido com ele, de imediato, as novidades de minha vida como sempre faço. O trabalho de Lili, como médica, foi desnecessário, embora a sua presença tenha ajudado, de uma forma não-científica, a tornar aquele momento mais especial. Papai não chorou como nunca choram os pais diante dos filhos e nem enfartou para a minha história terminar mais emocionante. Apenas sorriu e, após um breve silêncio ao olhar a foto que ilustra esse capítulo, disse que ele possuía muitas outras imagens, parecidas com aquelas, guardadas com ele. Dentro dele.
Almoçamos juntos no Benkei naquele dia. Papai insistia em saber se eu havia resolvido a minha vida com a minha ida a São Paulo. Entre um sushi e um sashimi tentava explicar porque voltei de mãos vazias em relação ao meu primeiro objetivo, a dizer, ter um bom projeto que me desse o passaporte para ingressar, nesse ano, num doutorado em ensino de física. Ao contrário do que eu esperava de mim mesmo, havia muita calma ao dizer isso. Ouvi, um dia, de meu professor de filosofia que ao lermos um texto filosófico devemos estar atentos ao que não está escrito. Isso nos fará captar a essência das palavras impressas. Transpondo, sem licença, essa possível verdade para tudo que estava à minha volta naquele momento, sorri para papai dizendo que sim, a minha vida estava definitivamente resolvida com toda aquela viagem.

FIM

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Beleza Suburbana

Morava numa casa de dois andares, numa vila localizada no Subúrbio do Rio, em Madureira. Conviviam nela, pessoas de todas as idades, cores, tamanhos e até níveis sociais diferentes, bem diferentes.

Havia brigas, é claro. Certo dia, uma senhora, que morava sozinha com o pai, chegou do trabalho e deparou-se com crianças brincando de pique no local que era comum a todos os moradores e foi logo falando alto e em bom tom que lugar de criança é no parque, que aquele lugar que ficava entre as casas era somente para as pessoas entrarem e saírem, nunca para brincar!e por aí foi se exaltando no discurso em prol do silêncio. Uma mãe logo apareceu para saber o que estava acontecendo e como dizem os suburbanos, o barraco estava montado. Era um tal de vai lavar uma louça daqui...de que a outra era mal amada de lá...

E os carros? Quem tinha lutava pelo direito de colocar na vila, quem não tinha lutava pelo espaço vazio. Ter cachorro era permitido, mas peralá...levar cachorro para fazer as necessidades logo ali fora, não senhora! Ouvir rádio alto podia, mas música evangélica...pó baixá, logo gritavam de uma janela. Quanto a limpeza da vila o negócio era organizado, cada um varria a sujeira da frente de sua casa e colocava na frente da casa ao lado, pode-se dizer que se tratava de um lixo nômade, cada dia encontrava-se em frente a uma casa diferente. Mas todos varriam, neste ponto todo mundo cooperava.
Numa noite de inverno no meio da semana, quando todos estavam dentro de suas casas, um balão começou a soltar fogos. Um barulho danado. As crianças foram as primeiras a sair e dar o alarme que havia balão no céu e que estava bonito. Aos poucos foram saindo outros e logo que olhavam para o balão tocavam a campainha do vizinho para que viesse correndo ver. Olha lá ! Vem, dona Albertina ! Seu Geraldo, tá vendo lá longe ? Papai, to com medo...Olhaolhaolha! E o balão não decepcionava, continuava comandando o espetáculo.

Fui até a janela de meu quarto e fiquei admirando as cores dos fogos de artifício, mas logo o balão foi empurrado pelo vento e, da minha janela, por mais que eu me esticasse e me contorcesse não conseguia ver mais nada. Olhei lá para baixo e dona Jurema, ao me ver em posição desprivilegiada, gritou para eu descer rápido . Com o grito todos olharam para mim. Começaram a dar sinal, gritar para eu sair da janela e me juntar a eles mas o balão começou a fazer novas gracinhas voltando a ser o centro das atenções, desviando, assim, todos os olhares para ele.
De cima vi, de repente, os vizinhos como nunca havia visto. Todos estavam com o pescoço curvado, olhando para o céu com um sorriso bobo estampado, cutucando uns aos outros. Os olhos de cada um refletiam as cores vistas no céu. A senhora que havia brigado com as crianças estava segurando Nicole no colo para que ela conseguisse ver melhor o balão. O cachorro andava calmamente entre todos, o lixo ali no lugar onde sempre ficava às quartas – feiras. Pude então, ao permanecer na janela, observar, de camarote, o verdadeiro espetáculo de luz e beleza.
Escrito em março de 2002