quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Nara



Nara participou de um evento promovido pela Folha Dirigida pelo fato de sua redação ter sido uma das melhores esse ano. Cada escola manda 3 redações e a da Nara entrou! Todas as redações foram editadas no livro Projeto Redação 2009 do qual participam escolas públicas e particulares do Rio de Janeiro. A homenagem a todos os participantes foi feita no Jockey Club no centro da cidade.

A brincadeira era falar sobre a Lua. Todos falaram muito bem dela mas a Nara mandou essa:

Eu não sou nenhum poeta,
nem repentista de rua
Como é que quer que eu faça
Uma poesia da Lua?

A Lua não me fascina,
Nem luz própria ela tem.
É fria, branquela, redonda e
Exibida também.

Vive mudando de fase
Do efeito sanfona padece
É mulher de duas caras
Mas só uma aparece.

Vive rodeando a Terra
De tão chata que ela é.
Enche a cara, joga charme
E sobre a nossa maré!

Ai...quanto orgulho!!!!!

domingo, 13 de dezembro de 2009

Pre$ente*

*Este texto foi reescrito. Já o havia postado no globoonliners. Estamos nos aproximando do Natal. Muito embora a televisão não me tenha como expectadora percebo, por outros meios, que há sempre uma forte associação com a data, teoricamente ligada ao calendário religioso, e o comércio. As primeiras páginas na Internet e nos jornais nos bombardeiam de anúncios que se metem na frente das notícias nos obrigando praticamente a comprar qualquer coisa. Também há os shoppings lotados de pessoas penduradas de bolsas que, para quem as carrega, parece mostrar uma certa proporcionalidade do volume transportado com a alegria que sentirão na noite de Natal.

Todo esse desconforto que sinto passaria em silêncio, como já passou vários anos, mas o diferencial que não mais me deixou ficar calada foi o fato de minha filha de 11 anos vir me pedir um presente. Ainda por cima, pediu algo bem caro, pois, como ela mesmo disse, não era um presente qualquer, era um presente de Natal! Ela quer um PSP. Na hora eu pensei que fosse algum partido político e não entendi nada, mas depois descobri que é um videogame portátil de mil reais mais ou menos. Eu poderia até dar o que Nara havia me pedido, mas não mais como presente, pois este não se pede. Foi exatamente isso o que eu lhe disse e ela, obviamente, não entendeu. Então, contei-lhe uma história.

Há pouco tempo atrás eu vi vendendo em uma padaria umas bananadas pretinhas e grossas. Comprei uma e, antes mesmo de sair do estabelecimento, abri e comi. Ao descer pela garganta, aquele doce trouxe, além de calorias para dentro de mim, uma lembrança com a mesma quantidade de açúcar que continha. Fez com que meus olhos brilhassem com mais intensidade por causa das lágrimas que foram produzidas muito timidamente. Quem, ou melhor, por que um adulto choraria numa padaria ao morder uma bananada? Contive-me um pouco e acabei fazendo pior do que chorar. Ri com os dentes ainda pretos para quem me vendeu o doce e pedi todas as outras bananadas que estavam no balcão.

Cheguei em casa, coloquei toda aquela deliciosa aquisição numa caixa de sapato e embrulhei com um papel de presente bem bonito. Abusei do durex e das fitas vermelhas em volta. Tudo propositalmente, pois, como já deu para perceber, iria presentear alguém. A abertura de um presente é um momento solene e eu queria que esse momento durasse um pouco mais do que o normal... exatamente para eu ter mais tempo de observar o rosto assustado para quem ele seria destinado.

Manuela, que morava na casa ao lado da casa de meus pais, a madrinha de todas as minhas bonecas, foi minha melhor amiga na infância. Tínhamos a mesma idade, íamos juntas para a escola cantando as músicas do Balão Mágico, voltávamos juntas, fazíamos deveres de casa separadas porque mamãe dizia que aprender era um ato solitário, mas depois era só pular o muro e pronto! Juntas de novo! Fizemos, agora veja, o catecismo e a primeira comunhão juntas! Contamos tudo uma para a outra, até o que dissemos e não dissemos para o padre na hora da nossa primeira confissão. Manuela que falou mais do que devia teve a primeira penitência muito maior do que a minha. Quando eu estava no "amém" terminando a minha dúzia de pais-nossos, Manuela se ajoelhou ao meu lado com aquele número assustador: 30 pais-nossos e 20 ave-marias. Você contou aquele sonho com o seu pai? Ai, Manu, como tu é burra! Deixa que eu rezo as ave-marias pra você. Dentre tantas coisas prazerosas que a infância nos proporcionou uma delas era a nossa ida semanal a um botequim perto de casa que vendia umas bananadas que era o manjar dos deuses. Comprávamos o doce preto embrulhado no plástico e corríamos para nossa cabana para comer bem devagar. Nem sei quantas vezes fizemos isso juntas.

A infância havia passado e a adolescência também. Manuela estava morando sozinha num apartamento por aqui perto. Bati na porta e ela se surpreendeu ao me ver e ficou mais ainda assustada quando, sem falar nada, estiquei os meus braços passando-lhe o presente. A ingenuidade havia passado com os anos. A desconfiança, marca dos sobreviventes, ganhava espaço no olhar. Sorri. Abra, sua boba! Ainda na porta, cada uma de um lado que marcava o limite daquele lar solitário, Manuela começou abrir a caixa de sapatos. Parou um momento com medo de continuar. Estava na cara que era uma brincadeira e ela não estava segura de que iria se divertir com aquilo. Abra, Manu!Olha, se você não gostar me devolva, ok? Manuela demorou a acreditar quando viu o conteúdo. Ficou olhando para dentro da caixa um tempão e seus olhos azuis estavam completamente lubrificados de emoção. Elika, foi o melhor presente que ganhei na minha vida!

Aquelas bananadas, que não me custaram cinco reais, mostraram como Manuela esteve presente dentro de mim. E deve ser por isso que presente se chama presente. Para mostrar que não esquecemos da pessoa. Ele é uma comunicação simbólica na qual estão expressos nossos sentimentos mais pessoais. O valor não está ligado a um número que vem precedido de um cifrão.

Tá bom, mãe, entendi. Mas, por favor, não espere que eu fique feliz com bananadas no Natal.

Um a zero para a televisão.



domingo, 6 de dezembro de 2009

A imaginação é mais importante que o conhecimento*

* Albert Einstein


Eu tenho uma teoria. Na verdade duas, mas uma delas faz uma previsão de como os chineses vão dominar o mundo e hoje eu não quero falar sobre isso. Então, esqueçamos esta última, por ora, e nos apeguemos somente à primeira.

Não se pode dizer que a teoria em questão se enquadra nos padrões exigidos hoje no mundo acadêmico e, portanto, não possui o status científico. Mas isso não a diminui. Ela é uma teoria super séria que se baseia em observações realizadas por mim desde os idos de 1991. Se hoje não a publico em revistas de divulgação da ciência é pelo fato dela envolver um mistério indecifrável e todos sabemos muito bem que os cientistas são altamente preconceituosos com esse tipo de coisa.

A minha teoria explica as muitas sensações estranhas que temos tido ultimamente. Quem nunca percebeu que uma pessoa de setenta anos hoje aparenta ser muito mais jovem do que uma de setenta anos vinte anos atrás? Quem também nunca reclamou ou ouviu alguém reclamar que as vinte e quatro horas do dia não tem sido suficientes? Baseada nessas e em muitas outras observações, a minha teoria afirma com total segurança que:

O “tempo” gasto pelos planetas para dar uma volta completa em torno do Sol e em torno de si mesmos vem diminuindo.

A forma como o período de rotação e translação dos planetas vem se tornando menor, é impossível de ser conhecida e logo adiante explicarei o por quê. Mas é certo que algo nos é subtraído a cada ano e não é o tempo tal como ele o é entendido no senso comum, a dizer, aquele marcado nos relógios. Por isso o escrevi, acima, entre aspas. Digo isso porque os minutos continuam tendo os mesmos sessenta segundos desde que o sistema sexagesimal foi inventado. Porém, raciocinem comigo, o segundo, unidade de tempo mínima nos relógios analógicos, foi inicialmente definido como fração 1/86400 do dia solar médio. Se o dia solar médio, como versa a minha teoria, diminui, o segundo, aquilo que marca o ponteiro mais fino dos relógios, diminui consequentemente, exatamente da mesma forma que a medida da polegada (uma unidade de medida que era realizada com o polegar do Rei vigente na época) diminuiria para um Rei anão! Quando vamos medir o período de um planeta usamos um relógio que, neste caso, está intimamente e misteriosamente ligado ao próprio período que desejamos medir! Torna-se impossível, desta forma, a demonstração da minha teoria. Você deve apenas aceitá-la como verdade.

Seguindo esse meu raciocínio super elaborado, os nossos dias realmente são menores do que os dias de quando éramos crianças embora, continue tendo as mesmas vinte e quatro horas marcadas nos relógios (que se aceleram junto com todo o movimento planetário). Todos esses “idosos” serelepes caminhando, indo à academia e correndo nas praias não tem nada a ver com avanço de medicina porque a longevidade das pessoas não está aumentando, assim como de bicho nenhum na face da Terra! Estamos sim, dando mais voltas em torno do Sol, mas, insisto: durando o mesmo tempo que durávamos há mil ou cem mil anos atrás! Continuamos a envelhecer na mesma velocidade que nossos mais antigos ancestrais, mas mantivemos a tradição de contar como um ano de vida cada vez que o planeta volta a ocupar a mesma posição que estava em relação ao Sol no dia em que nascemos! A nossa indignação ao ver o final de ano se aproximando desenfreadamente só comprova a veracidade de tudo que foi explanado aqui hoje com tanta austeridade.

Após a aceitação dessa teoria super séria, a culpa que sentimos pelo fato de não se conseguir cumprir os prazos e fazer tudo o que está na agenda chega ao fim. Caberá agora reformular o nosso calendário de forma que se adapte às novas velocidades dos astros fazendo com que, por exemplo, o intervalo entre dois reveillons seja de no mínimo dois verões. Caso o contrário, chegará o dia em que nem mais dará tempo de desmontar as nossas árvores de Natal.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Meus Deleites

Ver velhinhas arrumadas andando na rua, passarinho colorido quando pousa perto da gente, beber água gelada depois de escovar os dentes, fazer molho de pimenta, tirar os sapatos, dar livros de presente, tomar banho quente, dobrar a língua junto com a Nara, acertar bola de papel no lixo, dormir cansada, aroma de madeira, a casa de meus pais, ver papai tirando fotos de flor, batucada bem batida, comidas típicas sejam lá da onde for, bolo de combole, ver gaveta de casa arrumada, celular novo, achar nota de cinquenta reais no bolso da calça, ar condicionado, milho cozido, álbum de fotos, fotos que a gente fica mais bonito que já é, livros antigos, ver as pessoas tentando falar papibaquígrafo, ligar para minha mãe dizendo que cheguei, ligar para minha mãe dizendo que saí, ligar para minha mãe, cheiro de neném, ver que meu colesterol está baixo, apanhar qualquer coisa que me lançaram de longe, apertar o play do DVD, demonstrar leis da física, perceber que Angeline Jolie fica feia em determinados ângulos, dar uma aula legal, ver um esquilo parado, rever Noviça Rebelde com as crianças, acompanhar o crescimento da árvore que eu plantei, receber comentários no meu Blog, ver o Cristo Redentor de dentro do avião, cheiro de cocô de vaca, fotos antigas, ouvir música da época em que era adolescente, abraçar os amigos, gente engraçada, conhecer gente que aparece na televisão, os livros do Ziraldo, ouvir tia Elika? quando atendo o telefone, assistir filme que ganhou Oscar, falar a verdade, contar uma mentira, sotaque nordestino, fantasiar a família toda no carnaval, férias com meus sobrinhos, festa junina, ficar de pijama o domingo inteiro, ler na cama, dizer nasceu!, ver filme deitada, receber um email de um amigo distante com saudades, planejar viagem para Buenos Aires, ouvir gargalhada de filho, pintar quadro bonito, décimo terceiro, comer mentos depois de morder um chocolate, morder chocolate, massagem no pé, comer frango assado com a mão, ensinar como se come peixe cru com pauzinhos, tocar pandeiro, desenformar pudim, cantar em italiano, Sapucaí, levantar da cama e deitar no sofá, gelo com coca-cola, ver filho tirando nota dez, comer pão que acabou de sair do forno, comer pão esquentado na chapa, comer pão, ouvir o dentista falando que não tenho cárie, cheiro de dama da noite, ver o relógio marcando oito horas quando acordo, voltar a dormir, sonhar que estou voando, o sorriso do Brad Pitt, sorriso de negão muito simpático com dentes brancos, ver salto acrobático que pode causar a morte do atleta, velhinho lúcido, tango bem dançado, roer osso depois de ter comido a carne, o olhar do gato de botas do Shrek, descobrir que não vai chover no site climatempo, jabuticaba colhida do pé, trazer para casa queijo de Minas comprado em Minas, ficar chupando a água salgada do sabugo de milho, passear de bote inflável e levantar o remo com as duas mãos e gritar urrú, receber mensagens dos amigos no celular, lembrar episódios da infância, baleia, varanda de fazenda, cavalgar em cavalo bonito, ler a sessão entreouvidos do jornal de Domingo, girar um compasso e ver o círculo perfeito, fazer um círculo quase perfeito sem um compasso, ser apresentado a um monumento famoso, ver filho arrumadinho pra sair, conseguir pegar siri na praia com a mão e mostrar para as crianças como se faz, bisbilhotar a biblioteca dos amigos, fazer as pazes, pé-de-moleque de Piranguinho, ver um rato cruzando o asfalto, falar que dinheiro não traz felicidade, pintar ovos quando chegam do supermercado, descobrir que a boazuda da época de escola engordou muito, Homem de Ferro, Homem-Aranha, barulho de cachoeira, casa dos amigos, estourar bolinhas do plástico-bolha, atualizar o Curriculum Lattes, a voz do Renato Russo, dançar igual chacrete, mostrar para as pessoas que consigo me levantar sem colocar as mãos no chão, descer num toboágua gritando alto, escrever uma crônica, entender um filósofo, fingir que entendi alguma coisa, cheirar debaixo do braço e ver que não tem cecê, coçar ouvido com o dedo mindinho, empurrar pessoas na piscina, cheiro de café, de pipoca-doce e do Nelson; ver mamãe eletrocutando moscas com uma raquete, aplaudir involuntariamente, ver a parte detrás da Candelária, doces árabes, vestir roupa nova, vestir roupa de dez anos atrás e ver que serve direitinho, não vestir roupa nenhuma, ser madrinha de casamento, ser madrinha de filho dos amigos, levar alunos ao museu de astronomia, ficar pensando para terminar essa lista e toda hora me lembrar de mais alguma coisa.



domingo, 22 de novembro de 2009

Viver é Desenhar Sem Borracha*

* Millôr Fernandes
Eu acreditava que a vida era assim: existia o certo e existia o errado e ponto final. Tudo bem que o certo e/ou o errado é relativo. Mas, a partir do momento em que alguém se encontra num referencial fixo, essa relatividade naturalmente se esvaece. Ou é correto ou não, visto dali dos olhos de quem está vendo. E com o preto e o branco devidamente definidos, estamos prontos para escolhermos os nossos amigos, os nossos pares, para julgar terceiros e para educar os nossos filhos. Simples assim.

Ledo engano. Esta semana que passou acabou com essa ilusória simplicidade das duas cores.

Cena 1: Conversa entre mim e meu filho adolescente na sexta a tarde.

Abre parêntese

Hideo tem dezesseis anos, repetiu o oitavo e o nono anos. Era para o ano que vem prestar vestibular. Mas não. Hideo ano que vem começará o ensino médio. Futuro? Futuro para o Hideo é o que ele vai fazer nesta noite ou, no máximo, no próximo final de semana. Ah, já ia me esquecendo: Hideo é o menino mais popular da escola.

Fecha parêntese

- Mãe, vou sair hoje. Vou à casa do Biel com o Coutinho.
- Como sair? Você nem pegou num livro! Semana que vem é semana de provas!
- Mas eu não vou estudar hoje a noite. Qual o problema?
- O problema? O problema é que a sua vida é um circo! Só que eu, Hideo, não sou palhaça!
- Mas quem te chamou de palhaça, mãe?
- Se eu deixar você sair hoje eu vou me sentir uma.
- Mãe, você está falando estranho. Está estressada. Vem aqui me dá um abraço e dança comigo.
- Tá vendo? É assim que você encara a vida. Tudo na brincadeira. Você debocha de mim, Hideo. Pois hoje, Hideo, hoje (!!!) você vai ficar em casa refletindo sobre o seu futuro e sobre o seu comportamento.

Hideo me pegou para dançar. E eu fiquei tentando me desvencilhar.

- Mãe, para com isso. Por que você não aceita o fato que eu não gosto de estudar?
- Porque você precisa estudar para passar para uma boa faculdade e trabalhar e ganhar dinheiro e tudo o mais que estou careca de dizer.
- Mas, mãe, sinceramente. Você acha mesmo que eu saindo hoje a noite vou comprometer tanto assim o meu futuro? Você acha que eu não vou dar um jeito na minha vida quando chegar a hora? Por que você não consegue se orgulhar com o fato de seu filho ser conhecido pela simpatia que emana, pelo poder de agregar os amigos, de organizar encontros...pelas namoradas que tem e que muitos não conseguem ter? Você já percebeu como você fala comigo sempre? Só brigando! Não consigo fazer você ficar orgulhosa de mim. Será que se eu fosse um desses seus alunos nerds e vivesse em casa estudando, você dançaria comigo?
- ...
- Posso sair?
- Não volte muito tarde, ok?

Cena 2: Conversa entre mim e minha filha de onze anos.

Abre parêntese

Pati, minha yorkshire, se enroscou com Apolo, o pinscher horroroso da Dona Nilce, mesmo depois de eu ter tomado tantos cuidados para que um não se aproximasse do outro. Conclusão: os filhotes-de-cruz-credo nascerão em breve. E eu que havia arrumado tantos yorkshires lindos para ela, todos com pedigree...

Fecha parênteses

- Mãe, vamos ficar com todos os filhotes?
- Claro que não! Não vamos ficar com nenhum!
- Como não?!? São os filhos da Pati! Pelo menos com um temos que ficar, mãe! – Nara já estava com os olhos brilhando demais da conta por mim suportável.
- Nara, não e ponto final!- (Ó, jesuis, por que os meus pontos finais nunca funcionam como na gramática???).
- Mas, mãe, por que não?
- Porque vão ser filhotes-de-cruz-credo. Todos vira-latas. Assim que a Pati morrer a gente escolhe um bem bonitinho de raça.
- Esse é o seu critério? Se tem ou não raça e pedigree?
- Sim. – Disse eu, sem titubear, baseada no que sempre ouvi de minha mãe: "Cachorro para viver dentro de casa tem que ter documento!".
- Mas e eu? O que eu sou? Não sou uma vira-lata? Tenho a pele morena, olhos puxados...eu valeria mais para você se fosse uma japonesa pura?
- Claro que não, Nara! Que idéia!
- E por que o seu critério muda para os bichos? Por que você não aceita o fato de que a mistura entre eles possa até, quem sabe, gerar melhores resultados?
- ...
- Posso ficar com um?
- Vamos conversar com o papai, tá bom?

Cena 3: conversa entre mim e meu filho de três anos.

Abre parêntese

Desde antes d’eu ter o meu primeiro filho, ouvi dizer pela boca de ilustres e famosos psicólogos que o certo é: quando se ouvir uma criança que está aprendendo a falar pronunciar uma palavra errada, jamais repeti-la na forma em que foi dita. Isso só reforçará o erro. Devemos, em seguida sempre, proferir o vocábulo corretamente.

Fecha parêntese

- Móin, eu quelo bolo de combole.
- ..., ..., ..., o que, meu filho?... o que você quer? – perguntei eu, tão emocionada quanto aqueles que se encontram pela primeira vez em frente às Cataratas do Iguaçu.
- Eu quelo bolo de combole, móin.

Neste momento, tive a certeza de que nunca mais comerei rocambole na minha vida.

Depois dessa semana, difícil agora é dar alguma opinião seja lá sobre o que for. E ponto.



sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Presente de Aniversário


Desejo a você muito mais do que 13 anos de felicidade!

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Dizem por aí que os cachorros se parecem com seus donos...



...será que acontece o mesmo fenômeno com os ovos???

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Nem posso mais falar quando abro minha geladeira...


O que será que está acontecendo??? Desde o início da semana eles só querem saber de dormir...

terça-feira, 3 de novembro de 2009

O Ovo de Meio Quilo

Uma galinha põe um ovo de meio quilo. Jornais, televisão, repórteres... todos atrás da galinha:

- Como conseguiu esta façanha, Sra. Galinha?
- Segredo de família...
- E os planos para o futuro?
- Botar um ovo de um quilo!
As atenções se voltam para o galo...
- Como conseguiram tal façanha, Sr. Galo?
- Segredo de família...
- E os planos para o futuro?
- Partir a cara do avestruz!!!

Esses ovos...

domingo, 1 de novembro de 2009

Os Ovos e El Conocimiento

Esqueci o meu livro na cozinha e quando volto para buscá-lo levo o maior susto!





quinta-feira, 29 de outubro de 2009

O Ovo Quis Também!



Jesuis!!! Agora aqui em casa temos que comer escondido!!!!




quinta-feira, 15 de outubro de 2009

“Para que serve um livro que não tenha figuras ou conversas?” *

*Alice, em Alice no país das Maravilhas


Há tempos coleciono livros. Meus três filhos sabem que independente do preço e da época do ano, livro é a única coisa que eles ganham, na hora em que me pedem, sem o menor questionamento e hesitação. Muito pelo contrário. Certamente aprendi isso com papai que sempre me deixava à vontade nas livrarias e nas bienais da vida. Gostou desse? E pronto. Era meu. Simples assim. Reclamava do preço das roupas, das mensalidades das escolas, mas nuncanuncanunca ouvi papai reclamando do preço de um livro.

A verdade é que por conta disso eu já li muita besteira tendo a sensação de estar digerindo o manjar dos deuses. Hoje abro alguns livros e me divirto com a minha saudosa e doce imaturidade. Em uma fase rápida de minha adolescência, por exemplo, fiz dos livros de Roberto Freire a minha Bíblia Sagrada. Para quem não o conhece ele foi um sociólogo anarquista inclusive (e principalmente) do amor. “Porque eu te amo, tu não precisas de mim. Porque tu me amas, eu não preciso de ti. No amor, jamais nos deixamos completar. Somos, um para o outro, deliciosamente desnecessários”. Quanta bobagem... Essa é uma das partes por mim sublinhadas! Desde meus quatorze anos tenho essa mania de sublinhar expressões que me marcam de alguma forma nos meus livros. Às vezes faço um comentário curto ao lado de um parágrafo ou coloco o nome de uma pessoa que tenha sido lembrada quando li determinada locução. Não é raro ver numa obra literária lida por mim um simples ponto de exclamação ao lado de uma pequena parte ou seção de um discurso do autor. Quer dizer que eu fui deliciosamente surpreendida naquele momento.

Por conta disso não gosto que me emprestem livros. Eu os rabisco. Tenho mania de dialogar com o autor e dar minha opinião. Se gostou muito de um e quer que eu leia me dê as referências. Eu compro. Ou me presenteie. Mas não me empreste. Mesmo porque eu tenho dificuldade em devolvê-los caso me apegue realmente. E, pelo visto, outras pessoas são iguais a mim. Há uns buracos em várias prateleiras de minha biblioteca e consequentemente nas minhas lembranças. E isso é um pouco chato. Um pouco só.

Fato foi que de uns tempos para cá comecei a comprar livros em sebos. O último que comprei, com o intuito de estudar para a prova do doutorado que será sobre o filósofo e doido varrido Kant, foi um livro de Georges Pascal. O Pensamento de Kant. A compra foi feita pela Internet e para quem se interessar pelo site: estante-virtual-ponto-com-ponto-bê-érre. A livraria foi honesta, disse que o livro estava com as folhas amareladas e com algumas anotações feitas a lápis. Mandei vir mesmo assim. A diferença de preço para um novo era cinqüenta reais com trema e tudo. O que umas anotaçõezinhas iriam me atrapalhar? Sublimar-lhes-ei! Disse eu com a convicção de quem usa uma mesóclise nos dias de hoje.

Ao abrir o livro fui surpreendida de imediato por um nome escrito de próprio punho numa tarde certamente chuvosa de quarta-feira com uma caneta bic azul. Uma adorável sensação de estar de mãos dadas com alguém, estranhamente se fez presente quando escrevi com a minha caneta preta pentel Elika Takimoto, 2009 bem abaixo de Patrícia Alves Pinto da Veiga, 1986. Isso foi na sexta-feira retrasada. Fazia sol.

Patrícia, para meu desespero, tem a mesma mania, ou tinha há vinte três anos atrás, que eu. Sublinha, coloca pontos de exclamação, comenta, coloca pontos de interrogação(!). Patrícia não entendeu muita coisa que Georges lhe explicou. Eu fico agoniada com o fato dela, por exemplo, não ter entendido que “...o caráter intuitivo do espaço explica que tais juízos são sintéticos e, como a intuição é pura, a síntese é a priori”. Mas porque ela não entendeu? Estava tão clara no parágrafo anterior a explicação do Georges dessa proposição kantiana ... ai, Patrícia, por que você não entendeu? Será que eu estou entendendo errado então??? Por outro lado, às vezes fico orgulhosa com a Pati. Quando, por exemplo, ao lado de um parágrafo difícil eu vejo um ponto de exclamação. Ufa! Ela entendeu também. Olha que esse foi brabo, hein? E coloco o meu ponto de exclamação ao lado do dela. O parágrafo foi duplamente entendido!!

Depois que conheci Patrícia parei para refletir sobre o que ando fazendo nos meus livros. Eu nunca havia me dado conta de que um dia as minhas anotações, o meu diálogo silencioso com algum autor, as minhas lágrimas e os meus aplausos fossem vistos e ouvidos por mais alguém e que um simples ponto, seja ele de exclamação ou de interrogação, causasse tantas dúvidas e travasse tanto uma leitura.

Ainda estou mergulhada nos meus pensamentos que se voltam para mim mesma e examinam o meu hábito de literalmente meter meu dedo e minha lapiseira aonde não foram chamados. Mais um motivo para entrar urgentemente numa terapia.

Enquanto a coragem de encarar meu inconsciente de frente não aparece, fica a certeza de que pelo menos a Alice, a que andou no país das Maravilhas, se deliciaria lendo tudo o que já li.



segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O que será que meu pé está me dizendo?



Rio, 17 de Setembro de 2009

Já sabia desde ontem que hoje o dia seria difícil. Antes de sair de casa tratei de por a caixa de Neosaldina na bolsa. Lá pelas três da tarde certamente um comprimido seria subtraído. Marido embarcado, meus pais viajando e eu aqui com três crianças, duas casas para olhar (papai só viajou com mamãe na condição d’eu aguar as plantas, colocar cloro na piscina, pegar as cartas, revistas e jornais, cuidar da Hanna e alguém dormir lá) e a minha vida tendo que seguir normalmente.

Nara faz teatro, inglês, piano e estuda no sexto ano. Eu faço italiano, doutorado, sou professora e tenho mais dois filhos além dela. Tive que levá-la e trazê-la do teatro, do inglês, do piano e da escola e não podia perder as aulas de italiano, deixar de dar aula e me encontrar com o orientador. Além de aguar as plantas, colocar cloro na piscina, pegar as cartas, cuidar da Hanna e dar atenção ao restante da prole. O pior é ter coincidido com a semana de fazer mão e pé. O pé é que me matou.

Hoje não teve jeito, tive que pedir ajuda ao meu vizinho para levar Nara a escola. Aqui em Madureira é assim: podemos contar com a ajuda, a oração e a fumaça de nossos vizinhos. Dona Jurema sempre que defuma a casa dela deixa um pouco de fumaça entrar na minha, diz que mesmo que eu não acredite, ela faz questão de purificar a minha casa também. Umas duas vezes por semana, meu cafofo fica com o maior cheiro de macumba. Já dona Nilce gosta de colocar a Ave Maria bem alto todas as manhãs. Diz que mesmo que eu não acredite, ouvir a Ave Maria só me faz bem. Sendo cercada de vizinhos que se preocupam tanto comigo, na hora do aperto são os primeiros a serem lembrados. Seu Ivaldo, não tenho a quem recorrer... O senhor pode levar a Nara hoje na escola para mim para eu poder trabalhar? Com o maior prazer, minha filha! Seu Ivaldo é assim, parece que foi feito de açúcar. De quebra levou Yuki para passear.

A minha aula termina meio dia e trinta, encontro com o orientador uma hora na UERJ, uma hora de conversa prevista, depois tenho que entregar dois livros no CBPF, lá na Urca, antes das três e meia tenho que chegar em casa para dar tempo de Marilene fazer a mão e o pé (!) e sair a tempo de buscar Nara na escola e levá-la ao piano. Vai dar tudo certo. Tem que dar tudo certo.

Quando saí da sala no último tempo de aula recebi uma mensagem pelo celular. “Eka, quer ver uma coisa super engraçada? Liga para a mamãe agora. Bjs Lyli”. Ótimo, nada como rir num dia tenso. Imediatamente liguei para os pombinhos em Lua de Mel. Alô, pai! E aí, curtindo muito? Ah, que bom! Lyli me falou que vocês têm algo para me contar que eu vou rir... Papai não estava lá com nenhuma voz de estar achando nada engraçado mas passou imediatamente para a minha mãe. Alô, mãe, tudo bem? Elika? Kkkkkkk (Kkkkkk é minha mãe rindo) o seu pakkkkkkkk está brabo comigkkkkkkkkkk! Estamos conhecendo as vinícolas aqui do sukkkkkkkkkkk. Resumindo, em cada vinícola que paravam, mamãe experimentava o vinho que elas produziam. Resultado? Essa alegria desmedida. Enquanto ouvia mamãe tentando falar já estava a caminho da UERJ. Almocei hoje as risadas de mamãe.

A conversa com o orientador foi tranquila. Chegamos à conclusão que eu só tenho que ler mais uns seis livros antes de fazer a prova de seleção e acionar um plano B. Saí de lá não sem antes engolir um comprimido. Tudo bem. Estava tudo como havia previsto.

O que não estava no script do programa foi eu não encontrar rápido uma vaga aos arredores do CBPF. Cheguei à rua e dei uma piscadinha para o flanelinha com os faróis pedindo vaga. Ele ficou juntando e afastando os dedos de uma só mão com cara de quem pede desculpas. Não havia vagas... Ok, vou dar mais uma volta. Desliguei o rádio. Nunca entendi porque não consigo procurar uma vaga com o rádio ligado. Dei mais duas voltas no mesmo quarteirão quando o flanelinha me parou. Moça, encosta ali naquele ponto de ônibus com o pisca-alerta ligado. Enquanto a senhora dá essa volta sempre sai um carro. Obedeci. Abri a janela.Esperei um minuto e quarenta segundos. As pernas estavam balançando. Será que vai sair alguém? Perguntei ao flanelinha tendo a sensação de que nunca mais as pessoas sairiam de onde estavam. Sempre sai. Respondeu o flanelinha tendo a certeza de que eu não estava raciocinando. Mais um minuto e quinze segundos. Pior, moço, sabe?, o que eu tenho que fazer é tão rapidinho ... Aonde a senhora vai? Vou ali, entregar uns livros no CBPF. Falei com cara de choro já acreditando que terminaria o dia com o meu pé cheio de cutículas e calos. Faz o seguinte, deixa a chave comigo que se precisar eu manobro para a senhora. É rapidinho mesmo, né?

Por um motivo mais do que justo e explicado não pensei duas vezes. Entreguei a chave, peguei os livros e saí correndo. Somente no elevador dei conta do que havia acabado de fazer e entrei em pânico. Comecei a ouvir todo mundo me dizendo: Como você é burra! Não lê os jornais? Você veio da roça? Não ouve rádio? Como você confia assim em um flanelinha? Aimeodeos, e se o moço roubar meu carro... Não vai dar tempo de fazer nem a mão! Como pude fazer isso? E a Nara? Vou ter que ligar e pedir socorro ao seu Ivaldo de novo! Onde estava com a cabeça? Mania minha de sair confiando em todo mundo! Será que já não é tempo de crescer e amadurecer? Papai vai me matar quando souber que eu confiei num estranho...

Entrei na Biblioteca, disse à moça que era só para entregar os livros e voei na janela para ver a rua. Está preocupada com o carro, senhora? Ah sim, deixei a chave na mão do flanelinha. A senhora fez isso? Não lê os jornais? Você veio da roça? Não ouve rádio? Como você confia assim em um flanelinha? Olha, moça, se a senhora for um pouco mais rápida talvez dê tempo d’eu desfazer tudo isso e a felicidade continuar a existir para mim.

Assinei sem ler nada uns papéis que a moça-slow-motion me deu e desci pelas escadas com uma aceleração de dez metros por segundo ao quadrado. Se o carro estiver lá vou dar cem reais ao moço bonzinho. Fiz essa promessa sabe Deus para quem. Saí correndo pela rua, torci o pé e me aproximei do flanelinha pulando como um saci apostando corrida. Se machucou, moça? O flanelinha me perguntou se dirigindo rápido e assustado na minha direção para me ajudar. Depois me acompanhou até o carro e me disse: vou tirar o talão para a senhora poder estacionar em qualquer outro lugar hoje sem pagar nada. Dei os três reais do talão e sorri, a ponto das minhas orelhas se mexerem e meus olhos ficarem somente vinte por cento abertos para o moço bonzinho que deve ter se assustado com o que viu. É melhor a senhora ir andando...

Marilene se atrasou. Terminei o dia somente com as unhas das mãos pintadas, estranhamente feliz e aliviada, mas com uma sensação de que do dia de hoje posso tirar uma grande lição. Essa dorzinha chata no pé torcido e esse bando de cutícula nos dedos dos pés parecem estar querendo me dizer alguma coisa... Bom, deixa isso pra lá.




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Parágrafo excluído:


Voltando para casa liguei o rádio, coloquei o CD de Toquinho e cantamos juntos bem alto A Tonga da Mironga do Kabuletê. No sinal fechado olhei-me no espelho. Certifiquei-me que estava descabelada e sem batom e filosofei: quem marca melhor o tempo? O relógio ou meu rosto? Passei batom, dei um jeito com as mãos mesmo no cabelo e saí rápido dessa crise metafísica. O relógio, claro que o relógio.


domingo, 13 de setembro de 2009

Luciene

Esse texto funcionou como uma terapia para mim. Semana passada fiz exame de vista e constatei que minha miopia havia aumentado. Cheguei a 6,5 graus! O médico falou que ela ainda deve aumentar. Na mesma semana marquei uma audiometria e o resultado também foi assustador.

Luciene me mostrou que mesmo que eu fique cega e surda, a vida ainda pode ser divertidíssima.

Luciene nasceu assim, perfeitinha. Era a segunda filha de um casal que teve quatro filhos. Teve uma infância feliz. Foi criada numa casa no subúrbio carioca que possuía um quintal bem grande refrescado pela sombra de uma belíssima mangueira. Teve cachorro, coelho, hamster, porquinhos da índia, mas nunca passarinho. Luciene achava que passarinho na gaiola era triste, mas morria de rir ao ver o seu hamster correndo sem sair do lugar na roda girante. Colecionava selos, papel de carta e brincava com bonecas de papel.

Luciene era super saudável quase nunca ficava doente, mas ao nadar na praia do Leblon com seus nove anos contraiu hepatite. Ficou amarela, vomitou muito e teve que ficar deitada durante um mês. Quando ouviu do médico que não poderia comer batata frita Luciene preferiu a morte. Deixou o altruísmo de lado que tanto pregava e fez a mãe prometer que enquanto ela estivesse doente nenhum irmão comeria batata frita também. Luciene se sentiu melhor quando a mãe disse que sim com a cabeça.

Quando começou a estudar tinha dois graus de miopia e vergonha de usar óculos, era uma das melhores alunas, freqüentava a Igreja todos os Domingos, estudava piano, mas para desespero de seus pais os hormônios da adolescência mudaram drasticamente esse quadro. Luciene tornou-se, assim, digamos, da pá virada. Sua mãe enlouquecia diariamente com as besteiras que Luciene falava que ia fazer. Luciene dizia que não queria mais estudar, que queria trabalhar e ser independente aos 14 anos de idade. Queria ser dona do próprio nariz. Lia Roberto Freire, Paulo Coelho e nem piscava com as histórias da Agatha Christie. Achava Renato Russo o máximo e Fábio Júnior um pão. Ficou assustada com a morte de Cazuza e começou a usar lentes de contato. Luciene riu quando viu uma mulher comendo maçã na janela do quinto andar na Ernani Cardoso. Luciene começava a perceber como o mundo é cheio de detalhes.

Ficou em recuperação na sétima série, repetiu a oitava, mas mesmo assim ganhou um violão dos pais de Natal. Disse que ele era tudo o que queria na vida. Desistiu de estudar piano e nunca estudou violão. Luciene conheceu Nilton (aquele que seria seu marido dez anos depois) quando cursou pela primeira vez a oitava série. Como tinha certeza que havia achado o seu príncipe aos quinze anos de idade, Luciene relaxou e gozou. Quando estavam juntos Luciene dizia para todos que iam assim ficar para sempre. Todas as vezes que brigavam Luciene dizia que nunca mais o veria. Quantas vezes eles se separaram Luciene perdeu a conta.

Aos dezesseis anos voltou a ser uma das melhores alunas. Estudava francês às terças e quintas na Abolição na casa de um professor que também sabia latim, italiano e inglês. Luciene gostava de estudar francês e da casa do professor cuja cor das paredes nunca soube qual era, pois, eram todas revestidas de livros. Luciene roubou três livros do professor. Um do Carlos Drummond, outro do Ziraldo e um chamado Brasil Nunca Mais. Luciene ficou assustada com tudo o que leu.

O ponto de ônibus onde pegava condução para voltar para casa do curso de francês ficava em frente a uma Igreja evangélica. Luciene entrou e participou do culto. Na quinta-feira disse para a mãe que chegaria mais tarde, pois, queria conversar com o pastor. Luciene se revoltou com o que viu.

Luciene cursou física e na faculdade conheceu Gustavo. Achou Gustavo bonito e inteligente e tentou esquecer Nilton. Luciene engravidou de Gustavo e não esqueceu Nilton. Luciene teve dificuldades para contar para os seus pais que estava esperando neném com dezenove anos de idade, mas achou que não fosse ter forças para contar ao Nilton que estava noiva de Gustavo. Luciene chorou por não saber o que fazer.

Casou-se com Nilton três anos depois do neném de Luciene ter nascido, mas com sete meses de gravidez já haviam voltado o namoro. Tinha quatro graus de miopia. Luciene dizia que ficariam juntos para sempre. Luciene fez Gustavo sofrer.

Luciene recebeu uma proposta para fazer mestrado, mas teve que recusar, pois, estava grávida do segundo filho. Luciene trabalhava muito e cuidava de sua família. Teve uma inflamação séria na córnea que quase a cegou do olho esquerdo. Luciene passou a usar óculos com medo de se machucar de novo com lentes de contato. Separou-se de Nilton quando seu segundo filho estava com um ano. Achou que nunca mais veria Nilton. Luciene foi para Fortaleza com seu filho mais novo e sua irmã caçula. Luciene mandou um email para Nilton de Fortaleza.

Compraram uma casa de quatro quartos e um cachorro. Luciene resolveu fazer mestrado e ainda gostava de Fábio Júnior. No meio do mestrado engravidou do terceiro filho, passou num concurso público e estava com cinco graus de miopia. Luciene não ouvia seu terceiro filho chorar e nem o telefone tocar. Nilton pensou que Luciene estava muito concentrada nos estudos. Luciene foi ao médico. O resultado da audiometria de Luciene não foi bom.

Com menos de trinta e cinco anos de idade Luciene descobriu que havia perdido grande parte da audição e que nada poderia fazer para recuperar. O problema de Luciene era genético. A avó de Luciene era surda. A perda aumentaria exponencialmente com o passar dos anos. Luciene não deu ouvidos para o que o médico falou. Resolveu fazer doutorado e escreveu um livro. Luciene lia cada vez mais. Entrou para aula de italiano e descobriu que estava com sete graus de miopia. Começou a escrever crônicas e aprendeu a desenhar com lápis de cor. Ouvia Chico Buarque em italiano no volume máximo. Luciene passou a tomar decisões sozinha e sofria sempre com as conseqüências. Os amigos se perguntavam porque Luciene não mais os ouvia. Luciene vendeu o carro para comprar os aparelhos auditivos.

Luciene sentiu algo estranho quando colocou os aparelhos nos ouvidos pela primeira vez. Eles eram imperceptíveis, mas Luciene não prendeu mais os cabelos. Quando tomava banho Luciene tinha que tirá-los, mas também ficava sem eles quando lia. Luciene não queria ir à Itália de óculos e aparelhos nos ouvidos. Luciene resolveu operar a vista.

Luciene ficou indiferente à luz que recebia.

Seus olhos infeccionaram no pós-operatório e Luciene ficou cega.

Desistiu do seu curso de doutorado.

Luciene agora só queria ouvir os seus filhos. Passou a compreendê-los bem mais e participar muito mais de suas vidas. Seu segundo filho sempre teve dificuldades em história na escola e, depois que Luciene ficou cega, ele passou a ler o livro para Luciene que o interrompia sempre pedindo explicações. Agora ele diz que quer ser professor de história e só tira dez nessa matéria. Luciene cantava também com o filho mais velho que tocava violão. Passou a perceber quando ele errava uma nota e a ajudá-lo nas aulas de canto. Contava muitas histórias para o filho mais novo que adorava ouvi-las. Luciene amava conversar com Nilton que dizia que ela ficava muito bonita com óculos escuros. Luciene ouvia cada vez menos Fábio Júnior.

Luciene estava com quarenta anos quando os aparelhos auditivos foram ajustados ao grau máximo que se destinava. Luciene aprendeu cozinhar, a fazer esculturas, tricô, massagens, origami e ler Braille. O limite de freqüências audíveis estava cada vez menor para Luciene.

Luciene ficou completamente surda aos quarenta e cinco anos.

Luciene se lembrou quando não pôde comer batata-frita e lamentou o fato de não saber mais rezar.

Mas foi só com cinqüenta anos que Luciene chorou. De alegria.

Foi colocado pela primeira vez em seu colo o seu primeiro neto.

Luciene percebeu na primeira troca de fraldas que na verdade era avó de uma netinha. Luciene foi a avó mais carinhosa que uma criança pode ter. Não desgrudou dela um só minuto. Luciene teve quatro netos e todas as noras a queriam como babá. As festas de seus netos eram sempre decoradas com os origamis de Luciene. Nilton ficava muito orgulhoso e a abraçava com muito mais freqüência.

Luciene inventou um jeito especial de se comunicar com a gente. Cada parte do corpo que é tocado tem um significado. Podemos ficar horas conversando com Luciene. Exatamente agora a vovó está fazendo brigadeiro para o seu neto mais novo que tem quatro anos. O seu segundo neto quer ser escultor. Cláudio só quer saber de jogar bola por enquanto e eu, a primeira neta, quero ser escritora como minha avó já foi um dia.

13 de Setembro de 2040

Good Morning Baltimore!

É...bem... todo dia eu acordo assim mesmo.

Som na caixa!



Oh, oh, oh
Woke up today feeling the way I always do
Oh, oh, oh
Hungry for something that i can't eat
Then i hear that beat
That rhythm of town starts calling me down
It's like a message from high above
Oh, oh, oh
Pulling me out to the smiles and the streets that I love
Good morning baltimore
Every day's like an open door
Every night is a fantasy
Every sound's like a symphony
Good morning baltimore
And someday when i take to the floor
The world's gonna wake up and see
Baltimore and me
Oh, oh, oh
Look at my hair! What "do" can compare with mine today?
Oh, oh, oh,
I've got my hairspray and radio
I'm ready to go!
The rats on the street all dance around my feet
They seem to say"tracy, it's up to you"
So, oh, oh
Don't hold me back'cause today all my dreams will come true
Good morning baltimore
There's the flasher who lives next door
There's the bum on his bar room stool
They wish me luck on my way to school
Good morning baltimore
And some day when i take to the floor
The world's gonna wake up and see
Baltimore and me
I know every step
I know every song
I know there's a place where I belong
I see all those party lights shining ahead
So someone invite meBefore i drop dead!
So, oh, ohGive me a chance'cause when i start to dance
I'm a movie star
Oh, oh, oh
Something inside of me makes me move
When i hear that groove
My ma tells me no!
But my feet tell me go!
It's like a drummer inside my heart
Oh, oh, oh
Don't make me wait one more moment for my life to start...
I love you baltimore
Every day's like an open door
Every night is a fantasy
Every sound's like a symphony
And i promise baltimore
That someday whenI take to the floor
The world's gonna wake up and seeGonna wake up and see
Baltimore and me...

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Leia a Bíblia, tia Jú!


Esta gravura é uma ilustração de uma passagem da Bíblia: Abraão a ponto de matar seu filho Isaac.


Ando sem paciência com as igrejas de uma forma geral, mas a igreja Evangélica tem me tirado do sério. Tento fugir dos evangélicos, mas hoje em dia, como todos podem perceber, eles estão por todas as partes nos forçando a “aceitar Jesus” como se alguma vez na vida eu o recusasse e obrigando-me a ler as Sagradas Escrituras como se eu eu já não a tivesse lido.

A falta de leitura e o excesso de novela da grande parte da população carioca sempre me incomodaram. Nos três anos em que fui professora da rede estadual do Rio de Janeiro convivi com a triste realidade de lidar com um grande número de pessoas que não lêem nem bula de remédio e, óbvio, gastava infinitamente mais tempo para fazê-los entender coisas simples que outros, ainda que com pouca leitura (mas pelo menos com pouca), entendiam. Ah sim, antes que me esqueça, sempre que perguntava (e perguntava sempre) o que eles estavam lendo, quando havia alguém lendo alguma coisa dizia que era a Bíblia. Ótimo! Dizia eu! Pelo menos vai questionar o que está escrito nas Sagradas Escrituras, pensava. Mas quando ia discutir determinadas passagens, verificava que elas eram todas desconhecidas. Dizia que lia mas era mentira.

Fato é, constatado e facilmente percebido, que os evangélicos em sua maioria nada lêem. Muito menos a Bíblia que é um livro super grosso e sem gravuras. O que me agride é que essas pessoas seguem um determinado pastor que prega, sempre segurando a Bíblia, que aquilo que Nela está escrito é a palavra do Senhor e deve ser seguido. Em cima disso, fazem o discurso lavando cerebralmente e facilmente seus fiéis, já que nada lêem, arrancando deles o que conseguir. A eficiência dos pastores é medida pela quantidade de bens materiais que conseguem arrancar de seus fiéis que, por sua vez, provam o tamanho de sua fé com o que lhe é oferecido.

Marilene, minha manicure, e tia Jú, irmã de minha sogra, são evangélicas. Ambas seguem um pastor e estão na promessa de ler a Bíblia desde que “aceitaram Jesus”. Devido à convivência e o fato de gostar muito das duas, tenho que ouvi-las sempre. Sinto-me, no entanto, na obrigação de alertá-las sobre o fato de que a Bíblia tem que ser realmente lida como tantos outros livros mas não deve ser encarada como A Verdade. Quando digo isso elas se estremecem, se assustam, pedem, inutilmente, piedade pela minha alma.

A maioria de nós não provoca sofrimento desnecessário; acreditamos na liberdade de expressão e a protegemos mesmo quando discordamos do que está sendo dito; pagamos nossos impostos; não traímos, não matamos, não cometemos incesto, não fazemos aos outros aquilo que não queremos que façam conosco. Alguns desses bons princípios podem ser encontrados em livros sagrados, concordo com vocês duas, mas enterrados junto com um monte de coisas que nenhuma pessoa decente gostaria de seguir. Enfim, as Sagradas Escrituras, definitivamente, NÃO fornecem regras para distinguir os bons princípios dos ruins!

Agora quem resolveu salvar essas duas das trevas fui eu. Peguei a Bíblia, separei algumas partes para mostrar o que nenhum pastor mostra e muito menos discute. Para provar que não estou mentindo deixo para quem quiser a referência de onde tirei cada passagem.

Comecemos no Gênesis com a adorada história de Noé. A lenda dos animais entrando na arca aos pares é linda, mas a moral da história de Noé é assustadora. Deus condenou os seres humanos e resolveu (com exceção de uma família) afogar todos eles, incluindo as crianças, e também, por via das dúvidas, o resto dos animais (presumivelmente os inocentes).

Apesar de muitos teólogos (mas nenhum evangélico) já entenderem que não se interpreta o livro do Gênesis em termos literais um número assustadoramente grande de pessoas ainda interpreta as Escrituras, incluindo a história de Noé, de forma literal. Na destruição de Sodoma e Gomorra, foi Ló, sobrinho de Abraão, o escolhido para ser poupado junto com a sua família por ser especialmente correto. Dois anjos foram enviados a Sodoma para avisar a Ló e dizer que ele saísse da cidade antes da chegada do enxofre. Ló recebeu os anjos com hospitalidade, e então, todos os homens de Sodoma reuniram-se em torno da casa dele e exigiram que Ló entregasse os anjos para que eles pudessem sodomizá-los: “Onde estão os homens que vieram para sua casa esta noite? Traze-os para que deles abusemos”(Gênesis, 19,5). A bravura de Ló ao recusar-se a ceder à exigência sugere que Deus deve até ter tido razão ao considerá-lo o único homem de bem de Sodoma. Mas a auréola de Ló fica manchada com os termos de sua recusa: “Rogo-vos, meus irmãos, que não façais mal; tenho duas filhas, virgens, e vo-las trarei; tratai-as como vos parecer, porém nada façais a estes homens, porquanto se acham sob a proteção de meu teto” (Gênesis, 19,7-8).

Por mais estranha que a história possa parecer, ela certamente nos indica alguma coisa sobre o respeito reservado às mulheres nessa cultura inteiramente religiosa. No final, a oferta que Ló fez da virgindade de suas filhas mostrou-se desnecessária, pois os anjos conseguiram afastar os opressores cegando-os por milagre. Eles então advertiram Ló para que partisse imediatamente com a sua família e seus animais porque a cidade estava prestes a ser destruída. A família inteira escapou, com exceção da pobre mulher de Ló, que o Senhor transformou num pilar de sal por ter cometido a ofensa de olhar para trás para ver os fogos de artifício.

As duas filhas de Ló fazem uma breve reaparição na história. Depois da mãe delas ter sido transformada num pilar de sal, elas moram com o pai numa caverna, no alto de uma montanha. Carentes de companhia masculina, adivinha (!), elas decidem embebedar o pai e copular com ele. Ló não percebeu quando sua filha mais velha chegou a sua cama, mas não estava bêbado demais para engravidá-la. Na noite seguinte as duas filhas combinaram que era a vez da mais nova. Novamente Ló estava bêbado e engravidou a mais nova também (Gênesis, 10, 31-36). Se essa família tão perturbada era a melhor que Sodoma tinha a oferecer em termos de princípios morais, dá até para entender o enxofre punitivo mandado por Deus!

A história de Ló e os sodomitas ressoa de forma assustadora no capítulo 19 do livro dos Juízes, quando um levita (padre) não identificado viajava com a concubina em Jebus. Eles passaram a noite na casa de um velho hospitaleiro. Enquanto jantavam, os homens da cidade chegaram e bateram à porta, exigindo que o velho entregasse seu convidado “para que dele abusemos”. Praticamente com as mesmas palavras de Ló, o velho disse: “Não, irmão meus, não façais semelhante mal; já que o homem está em minha casa, não façais tal loucura. Minha filha virgem e a concubina dele trarei para fora; humilhai-as e fazei delas o que melhor vos agrade; porém a este homem não façais semelhante loucura”(juízes 19, 23-24). Acho o termo “humilhai-as” especialmente aterrador. Divirtam-se humilhando e estuprando a minha filha e a concubina desse padre, mas mostrem o devido respeito por meu convidado, que, afinal de contas, é homem. A concubina não teve a mesma sorte que as filhas depravadas de Ló.

O levita a entrega à multidão que a estupra coletivamente a noite inteira: “E eles a forçaram e abusaram dela toda a noite até pela manhã; e , subindo a lava, a deixaram. Ao romper da manhã, vindo a mulher, caiu à porta da casa do homem, onde estava o seu senhor, e ali ficou até que se fez dia claro”(Juízes 19, 25-26). De manhã o levita encontra a concubina prostrada na porta e diz: “Levanta-te e vamos”. Mas ela não se moveu. Estava morta. Então ele “tomou um cutelo e, pegando a concubina, a despedaçou por seus ossos em doze partes; e a enviou por todos os limites de Israel”. Sim. Você leu certo. Pode olhar em Juizes 19, 29. Mas a história não é tão maluca quanto parece. Havia um motivo: provocar uma vingança. E deu resultado, pois o incidente causou a guerra de desforra contra a tribo de Benjamim, na qual, como o capítulo 20 de Juízes ternamente registra, mais de 60 mil homens foram mortos. Essa história é tão parecida com a de Ló que não dá para não especular se algum fragmento do manuscrito sem querer não se misturou em algum escritório esquecido de um monastério.

Esses episódios desagradáveis não passam de pecadilhos se comparados à infame lenda do sacrifício de filho de Abraão, Isaac. Deus determinou que Abraão transformasse seu filho querido em oferenda em forma de fogo. Abraão construiu um altar, colocou lenha sobre ele e amarrou Isaac sobre a lenha. A faca assassina já estava em suas mãos quando um anjo interveio drasticamente, com a notícia de uma mudança de planos de última hora: Deus estava apenas brincando, no fim das contas, estava apenas testando a fé de Abraão. Ufa! Mas, como uma criança conseguiria se recuperar de tamanho trauma psicológico? Essa lenda que se assemelha a um filme de terror é um dos exemplos citados por vários pastores sobre a força da fé.

Mais uma vez muitos podem dizer que as Escrituras não devem ser encaradas ao pé da letra. Mas sim, Elas são encaradas como fatos literais e como exemplos a serem seguidos. Quem me disse isso foi Marilene e tia Jú fervorosamente. E mesmo se não for como fato literal, como já me cansou de alertar a minha mãe, como devo encarar todas essas histórias? Como uma alegoria? Alegoria de quê? Certamente de nada digno de louvor. Como lição moral? Mas que tipo de princípio moral podemos tirar dessas histórias, pastor? Ah, mas tem outras histórias lindas nas Escrituras...você está sendo radical! Alertou-me um pastor quando fui questioná-lo com meus 17 anos e com a minha Bíblia devidamente lida. Se é assim, pastor, precisamos ter algum critério independente para decidir quais trechos são morais: um critério que venha de onde vier, não pode vir da própria escritura.

Mas, minha filha, voltemos a história que tanto te incomoda, continuou o pastor, não foi bom que Deus tenha poupado a vida de Isaac no último minuto? Ah sim, seu pastor, isso prova que Deus realmente é bom, mas a onisciência cai por terra já que Ele não foi capaz de entrar na cabeça de Abraão e poupar a criança do trauma. Mas tudo bem, vou te mostrar outra história com um final menos feliz. Em Juízes, capítulo 11, o líder militar Jefté fez uma troca com Deus combinando que, se Deus garantisse a vitória de Jefté sobre os amonistas, Jefté sacrificaria, sem falta, na fogueira, “aquele que sair primeiro da porta da minha casa e vier ao meu encontro, voltando eu.” Jefté tinha mesmo a intenção de derrotar os amonistas e voltou para a casa vitorioso. Como era de se esperar, sua filha, única filha, saiu de casa para recebê-lo e, que pena, foi a primeira a sair pela porta. Jefté rasgou suas roupas, compreensivelmente, mas não havia nada que pudesse fazer. Deus estava ansioso pela oferenda prometida, e dadas às circunstâncias, a filha, respeitosamente, concordou em ser sacrificada. Ela só pediu permissão para ficar dois meses na montanha para lamentar a sua virgindade. Ao fim desse período ela voltou, obediente, e seu pai a cozinhou. Deus não achou por bem intervir nesse caso.

Mostrei esses trechos à Marilene e à tia Jú. Poderia mostrar outros já que minha Bíblia está toda grifada mas o rosto delas me mostrou que já era o bastante.

Refletiram. Ponto para mim.
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Parece que o presidente dos Estados Unidos pensa como eu. Fica aqui o vídeo para quem quiser conferir:

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Com vocês...Minha Sogra!!!!!


Tive problemas com as sombras...Errei nas cores. Deve ter algum jeito de fazê-las mais natural. Com certeza tem. Em compensação acertei pela primeira vez nos olhos, digo, no brilho dos olhos. A maior parte dele está sem pintar e, no entanto, dá para perceber que são castanhos escuros. Para ver com mais detalhes basta clicar em cima da foto.No desenho que havia feito aí embaixo (segundo desenho com cores), eu tentei fazer isso e fiquei estrábica, acabei desistindo de colocar muito brilho embora ninguém tenha reclamado disso.

Desenhar a sogra, ao contrário do que soa para muitos, foi um grande prazer.

Este será o meu presente de aniversário para ela.



segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Segundo Desenho com Cores



Esse me deu infinitamente mais trabalho e ainda não sei o por quê. Tive menos pressa. Talvez seja isso. O primeiro eu estava muito ansiosa para ver o resultado final e levei um dia fazendo. Esse foram três dias. Tomei mais cuidado com as plantas que ainda ficaram esquisitas mas bem melhores que as do primeiro. Levei uma surra com o macacão do Yuki. O próximo que eu fizer vai ser com todo mundo pelado e muito bem penteado com uma parede branca de fundo...

:-)
Se quiserem ver com mais detalhes basta clicar em cima do desenho.

Bom, agora sabe Deus quando vem o terceiro.

Tenho muito que filosofar... meu orientador vai surtar com essa minha cabeça tão descontraída. Tenho muito o que conversar com o Heidegger. Precisamos nos entender até novembro.

A culpa foi da gripe suína que estendeu essas férias.

Beijo em todos

LK

domingo, 2 de agosto de 2009

Primeiro Desenho com Cores



Fiquei toda enrolada brincando disso. Usei uma caixa de lápis de cor aquarelável. Nunca havia mexido com pincel.
O tamanho original do desenho é 42x59 cm.
Não sabia como fazer determinadas cores... as árvores no fundo parecem que foram feitas pelo Yuki...Quase fiz um desmatamento depois pintando o fundo de preto. Mas como foi o primeiro resolvi me perdoar e tomei coragem para mostrar.
Bom...minha mãe gostou.
Beijo em todos e obrigada pela visita!

sexta-feira, 10 de julho de 2009

A Volta de Eliseu

Para Hideo, meu filho adolescente que atualmente só fala em sair de casa e que vive me alertando que não será o “meu filhinho” para todo o sempre. Até parece...
Rio Claro, 10 de Julho de 2009.

Cara Conceição,

Há quanto tempo não nos falamos! Como está, minha amiga? Geraldo está bem?

Estou te escrevendo porque preciso dividir com alguém tamanha alegria que sinto e me lembrei de você. A letra está tremida porque estou repleta de emoção: meu menino voltou para casa!

Eu levei um susto quando abri a porta e o vi. Como cresceu, Conceição! Ele chegou como essas crianças mesmo que aprontam, sabe?, e ficam com medo de apanhar. Com carinha de pobre-coitado. Pediu logo desculpas e me deu um abraço longo e muito apertado. Sempre soube que ele voltaria. Disse que veio para ficar e nunca mais me abandonar. Eu até agora estou sem acreditar.

Às vezes acordo, penso que foi tudo um sonho. Vou ao quarto dele e o vejo dormindo como um anjo! Eu sabia que Deus estava me ouvindo. Mas, o danado se descobre todo quando dorme, Conceição, acredita? Comprei para ele um pijama de calça e mangas compridas, e quem disse que ele gosta? Qualquer dia acorda resfriado.

Voltei a cozinhar todos os dias, a fazer feira toda semana... Como o meu filhote come, Conceição! Dá até prazer de ver! Essa idade eles precisam mesmo se alimentar muito bem. A tarde ele vai se encontrar com alguns amigos que já fez por aqui pela vizinhança.Eliseu sempre foi de se enturmar fácil desde criança! Mas eu fico preocupada...a gente ouve cada coisa na televisão. Falei para ele trazer os amigos para cá, para eles ficarem jogando aqui, mas acho que eles se sentem meio constrangidos com a minha presença. De qualquer forma, ele nunca volta tarde, pois, sabe que eu só durmo quando ele chega. Como amadureceu meu Eliseu, Conceição.

É, minha amiga, peço a Deus para me dar muita saúde para eu poder cuidar do meu filho. Agora que ele está aqui, esses anos que se passaram, quantos foram, Ceição?, Deus fez parecer visto de agora que foram apenas alguns dias. Isso está me confundindo. Agora, falando com você, fiz as contas... Ele saiu de casa logo depois que a aquela atriz loira e também muito bonita morreu. Lembra dela, Conceição? Mérilin Monrou. Não sei escrever em inglês, amiga. Isso foi em 1962. Eliseu, coitado, estava perdido com aqueles hormônios da adolescência. Ele sentia vergonha pelo fato d’eu ser mãe-solteira naquela época, lembra? O coitadinho deve ter passado muito constrangimento por minha causa. Quando eu fugi de casa para morar com o Odilon tinha a idade dele também. Ô idade de todo mundo fugir de casa, Ceição! Eliseu nasceu em 45, dois anos depois d’eu ter saído pela janela da casa do papai. Odilon, aquele sem-vergonha, me abandonou em seguida, lembra, Ceição? Minhas mãos tinham feridas de tanto lavar as roupas das madames. Era o único serviço que conseguia fazer sem desgrudar os olhos do menino. Mas Eliseu sempre teve o que comer em casa. Graças a Deus. Não quero mais fazer contas não, Ceição! O importante é que ele voltou, bem no ano em que Maikon Jeckison morreu.
Eliseu é assim, Conceição, como eu sempre te disse, quase uma estrela...

Beijos

Bernadete

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Aiuto! Hilfe! Help! Ayuda!Tassukete!!!!

Esse texto foi escrito em Abril deste ano. Estava começando a aprender italiano. Obviamente nada sabia com menos de um mês de curso mas percebi que quase todas as palavras tinham "tt" ou "pp" e outras sutilezas. Munida de tal observação comecei a brincar com meus amigos e tive uma surpresa interessante com a reação de cada um. Resolvi, então, contar para vocês:

Io tengo una storia para contare per voi qui parece in otra linccua ... ma qualoquê! Una storia squisitta pella manera qui è narratta aqüi ma que voi irono compreendere tutto!!!!


Tutto ha comenciatto quandi io ho entratto no corso de italiano in questo anno! Até questo giorno, io parlava bene portuguese e scrivia bene in nostra linccua, ma dopo das primas leziones algo straño mi ha aconteçatto! Un spiritto ha baixatto in me!!!! Io solo scrivo emeio allora para tutti mundi in otra linccua qui ni è italiano e ni portuguese! Las personnes pensono qui io sto metitta, qui voglio aparecere exibinto conhecimentto, qui scrivo di sacanagge perchè io sono una persona snob...questas cosas maleditas qui parlam por aí. Ma non percebono qui quasi tutti las paroles sono inventatta por una mente confusa i poco sabida.


O strano è qui cada uno mi risponde os emeios di una manera diferentte! Mia sorella Lydiane, medicologa di nostra famiglia, mi ha rispondatto in alemone! Io non entenditto niente do qui lei scrivatto! Mia mama (mia mama!!!! Qui nunca scrivere per me in portuguese!!!) mi ha rispondatto in italiano, ma un italiano bello qui parecia alemone o giapanesse perchè io non compreendi niente!!!! Mi fratello Tony foi lo únicco qui mi ha rispondatto in portuguese (???):


“- Ih ah lá! Caraca, show... Aí, se fez... Putz. Mandou. Pô, pirei! Cara, fui.”


Mi maritto (qui lavora embarcatto na plataforme di Petrobrás) ha pensatto qui io sto ficanto fera in un mês de corso, lui ficcou orgulhosso de mi, ha pensatto qui io sono molto inteligentte e mi risponde tutto los emaios in inglese para non ficare para trás. Otros amicos di mi cuore stono scrivendo in questa linccua (!) e há aquelles qui si calam per non entenderem qui cosa è questa. Alcunos non leem o emaio pensantto qui non vono intendere... Mia otra sorella stressatta Tatiana, qui io chiammo di Ta (dopo mi mandare à un lugare qui non vou parlare per voi), mi ha scrivatto in giapannese:


Tadaima!!!!Asobimasho!!!!!!!!! Konnichi wa!!!! Ogenki dessu ka???????
Yoshi, watachi wa onee-chan desu. Sugoi!!!!!
Kyoo wa ii tenki desu ne??????
Yattaaaaaa!!!!!”


Dio mio!!!! Io non entendi niente e ficquei preocupatta. Sue emaio tinha molto ponto de exclamazione e interrogacione! Ella stava con alcun problema i nencuno ha intendatto o qui era... Dopo de questo preocupantte emaio in giapanesse io screvi para Tatiana, Lili e tutta mia famiglia in portuguese-giapanese qui tutti loro intenderam i qui voi entenderono tambien:


"Kommi wa masho ka: Tony e Takimoto-san! Ten aki femea tã be : Elika, Lili, Tadaiana e mama!


Ôgenki! Y a Ta! Dessu santo na Tadaiana! Kyô tenki ki fassoro??? Santo sugô shipiritô di Tadaiana!!!!! Kura Tadaiana, Lili-san-medikura-di-kassa!

Pero amô de Buda!"


Ma dai! Mi mama qui stava a bebere succo cuspiu tutti dopo lire questo emaio, saiu succo até pelo su naso di tantto rire de nervoso con tutti seus figlios straños.

E allora para tutto voltare ao normale??? Mi caxa di emaio virou la Torre de Babele i io non consico screvire diretto i nem intento niente qui me screvono.

La mente de las personnes sono molto squisittas...




quarta-feira, 17 de junho de 2009

Limpando a Cabeça


Yuki, meu filho mais novo pegou piolho. Detectei a invasão assim que percebi que o pandeiro não estava sendo tocado no ritmo certo. Para aqueles que não sabem, Yuki nasceu assim, sambista. Toca instrumentos de percussão com ritmo antes dos dois anos de idade. A falta de uma batida harmoniosa não é sinal de imaturidade ou inexperiência e sim de que algo o atrapalha, neste caso, a estadia da espécie pediculus humanus que estava começando a fazer a festa ao som daquela batucada forçadamente irregular.

Coube a mãe do sambista fazer o serviço sujo, na verdade, o serviço de limpeza daquela cabecinha balançante. Optei por não passar os remédios típicos para a pediculose porque ele é muito novinho e eu estava com medo de uma intoxicação. Então, restou-me a operação pente fino.

Mamãe vai pegar os bichinhos que estão mordendo a cabeça do neném. Eu vou passar esse pente e eles ficam agarradinhos nele, vamos ver? Yuki me ouvia e olhava o pente nas minhas mãos assustado. Mas seus olhos tinham muita curiosidade também a ponto de me permitir passar o pente com tranquilidade. Na primeira passada, peguei um grande. Aqui, meu filho, esse é o papai dos outros. Vamos pegar os filhotinhos e arrumar uma nova casinha para eles? E saí catando com toda calma, vigiada pelo olhar atento da minha criança, os filhos e a esposa do bicho que estava num pedaço de papel higiênico esperando o resto da família. Para aumentar a minha dificuldade de continuar com aquela historinha sem graça, recém-inventada e sem a menor dose de criatividade, peguei mais três grandes e cinco pequenininhos. Na minha cabeça, ou melhor, na cabeça do Yuki, aquilo era uma infestação e o pior! eu tenho nojo de usar meus polegares para um serviço que faria jus ao apelido que receberam de tanto que seus ancestrais esmagaram esses insetos nojentos até ouvir um tec! Embrulhei bem todos eles, mas muito bem embrulhados mesmo, joguei no vaso e demos tchau para toda família que iria participar de uma longa viagem assim que apertasse a descarga. Na semana seguinte, repeti o processo mandando mais filhinhos para junto do papai, da mamãe, da dinda, do tio Geraldo e dos irmãos que estavam numa terra muito-muito distante.

Quando Marilene, minha manicure, chegou aqui em casa para fazer o meu serviço de manutenção preventiva semanal, eu contei para ela com cara de nojo toda a história. Ao ouvir que havia tirado nove piolhos da cabeça do Yuki, ela esboçou um sorriso contido, desses que se manifestam muito mais com o brilho dos olhos que aumenta de forma involuntária do que com o esticar dos lábios, as vezes, forçado.

Disse que quando as crianças pegavam piolho no morro não dava nem para contar quantos eram. Sabe um céu cheio de estrelas? Então, nossa toalha ficava assim. E eu que achava que havia presenciado uma infestação... estava até com vergonha de tocar no assunto com outras pessoas por parecer negligência, sujeira ou sei lá o que mais que me apontasse como uma pessoa pouco asseada. Como tudo muda dependendo do referencial! Sábias palavras de Copérnico! Mas a diferença não estava somente nos números...

De vez em quando a mãe e a tia de Marilene resolviam ocupar a cabeça delas com a cabeça da minha manicure. E começavam o serviço assim: vamos fazer uma blitz nesse morro aí! Era o sinal que ela teria sua extremidade superior do corpo vasculhada sem que isso significasse revelar algum segredo.

Sendo puxada pelos cabelos à quatro mãos, o serviço era iniciado e Marilene ouvia: Aí, tô na escolta! Era a voz da mão da mãe de Marilene para a mão da tia de Marilene. Vamos passar o rodo! Respondia uma das mãos. Eu vou é mandar para a vala um punhado hoje, irmão! Vamu começar a passar o cerol geral!!! Nessa hora os piolhos que tudo entendiam, na cabeça da Marilene, estavam alvoroçados, correndo para todos os lados... já pipocou cinco na minha mão, irmão! Só nesse começo!!! Aqui, peguei o chefe! Cadê o gerente? Cadê o gerente? Vai falar não, filho da pu ... TEC! Aqui um olheiro! Crente que ia avisar o gerente, né? Tem de ficar esperto que tá a maior sujeira, gritou um aviãozinho já entre dois polegares, avisando aos outros sobre o que estava rolando no asfalto, momentos antes de morrer. Tu avisou aos soldados filho da pu ...TEC! Tá cheio de samango na área, só de escolta, esperando algum mané dar bobeira! Se liga, irmão! Se der mole, toma um bote! Eram os piolhos gritando uns para os outros, na cabeça da Marilene.

Eu fiquei assustadíssima com essa história contada enquanto minhas unhas ganhavam cores. Mas chego à conclusão que tenho dado muitos ouvidos para psicólogos. Outro dia me falaram para não cantar atirei-o-pau-no-gato para meus filhos e me ensinaram uma versão não-atire-o-pau-no-gato para que eles não se tornassem devassos matadores cruéis de animais quando crescessem. Estava morrendo de pena da Marilene, um doce de pessoa, e também de todas as crianças piolhentas do morro. Você ficava assustada Marilene? Tinha pesadelos?

Marilene se mijava de rir.
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Veja que interessante, não consegui postar o texto autêntico porque recebi a mensagem "Seu texto não pode ser publicado porque contém palavras não permitidas!" Nesse contexto, as expressões que podem parecer chulas, sem classe, e até agressivas... na realidade, são autênticas, sem recalques e que retrata o cotidiano nu e cru de algumas comunidades de uma forma bem divertida. A censura do blog pensa como eu pensava. Antes dessa conversa toda com a Marilene...





domingo, 7 de junho de 2009

Os 10 Mandamentos de Elika para Deus

Este texto teve como motivação o desastre do vôo 447 (a gota d'água).



Quando eu era criança eu ia à Igreja todos os domingos. Fiz catecismo e Primeira Comunhão. Mas não era toda semana que eu comungava. Às vezes, esquecia-me de confessar e com a vida plena de pecados ainda não contados para o padre, presbítero ou bispo, não era digna de receber o corpo de Cristo. Para ter direito a experimentar um pedaço de algo feito de água, farinha de trigo sem fermento e nem sal e que pesa menos de um grama, tinha que contar meus poucos segredos para um homem que nesse momento atuava em nome de Jesus e que me dava em seguida uma penitência. Depois de rezar um determinado número de Ave-Marias e Pais-Nossos, os danos causados pelos meus pecados eram reparados aos olhos do Senhor. Graças a Deus.

Como toda criança que frequentava a Igreja, eu morria de medo do Papai do Céu. Temia despertar sua ira e Ele acabar me mandando queimar no fogo do inferno. O padre com seus sermões elaborados especificamente para o público infantil das manhãs de domingo, fez-me crer que as Escrituras e o Antigo e o Novo Testamento eram um guia confiável para o que deveríamos acreditar. Não eram meramente documentos religiosos. Eles nos proporcionavam um relato verdadeiro sobre e história da Terra, que se ignorássemos seria por nossa própria conta e risco.

Como nunca neguei fogo para a leitura, não era raro aos 11 anos estar lendo uma Bíblia que tia Isa nos deu. Ela era escrita especificamente para as crianças. No Êxodo 20:2-17 encontrei os Dez Mandamentos. Fiquei curiosíssima, na época, pelo fato deles terem sido originalmente escritos por Deus em tábuas de pedra e entregues ao profeta Moisés. As famosas Tábuas da Lei. Este, ao apresentar os mandamentos do amor a Deus (os quatro primeiros) e ao próximo (os outros seis), traçava, para o povo eleito e para cada um em particular, o caminho duma vida liberta da escravidão do pecado. Como já disse em outros textos, sou um bom soldado. Bastava seguir aquelas 10 regras e estaria livre de ser fritada pela eternidade. Simples assim.Vejamos o que eu tinha que saber e fazer:

1- Eu Sou o SENHOR, o teu Deus
2- Não terás outros deuses além de mim
3- Não tomarás em vão o nome do SENHOR, o teu Deus
4- Lembra-te do dia de sábado, para santificá-lo
5- Honra teu pai e tua mãe
6- Não matarás
7- Não adulterarás
8- Não furtarás
9- Não darás falso testemunho contra o teu próximo
10- Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo.

Mesmo sem hoje pertencer à nenhuma religião, posso dizer que diante dessa tábua eu sou quase uma santa. Supondo que exista verdade nessa história de Moisés, que nos dizia também que a tábua original foi quebrada e que Deus teve que fazer uma outra, percebo que há, mesmo que pequena quando comparada com toda a Sua obra, uma certa fraqueza no Nosso Senhor. Por que a primeira tábua não era inquebravel? Ele devia estar tão preocupado com o que ia escrever sobre a tábua que passou despercebido o fato dela poder ser destruída assim que chegasse à Terra. Aquilo me fez pensar se em outras situações mundanas, Deus também não teria dado uma piscada mais longa e as negligenciado sem querer.

Até hoje, quando vejo ou ouço certas coisas, me pergunto: será que Deus estava dormindo? Mas, agora, lembrando-me dessa passagem bíblica, decidi ter uma outra postura. Ao invés de ficar brigando com Ele, resolvi que posso ajudá-Lo. Retribuindo a preocupação e a atenção que Ele teve comigo em deixar por escrito o que eu deveria e não deveria fazer, hoje, faço o mesmo. Deixo por escrito 10 mandamentos para que erros, com certeza ocorridos pelo fato Dele estar ocupado com coisas mais importantes, não tornem a acontecer. Tenho certeza de que se alguém tivesse dado esses toques antes algumas desgraças não teriam acontecido.

1- O Senhor pode fazer com que alguns aviões caiam. Mas está terminante proibido de fazê-lo quando o destino for Paris.

2- Jamais mate torcedores de enfarto quando o time pelo qual torcem ganhar a partida. E em hipótese alguma na hora do gol. Todos tem o direito de saber o que é a felicidade; embora, já entendamos que nem todos tenham o direito de ser feliz.

3- Nunca devemos ter medo de salvar o próximo. Para tanto, fique atento nesse momento para que a vida de heróis seja preservada.

4- Toda burrice poderá continuar sendo imperdoável. Mas cuidado! Crianças geralmente não são burras e a ingenuidade deve ser estimulada na infância e não castigada.

5- Os artistas merecem mais cuidados. Talvez a distância esteja Te enganando pois, de longe, todos somos iguais. Eles só devem ser levados embora após terem esgotado toda a sua produção por aqui.

6- Defina melhor “mulher do próximo”. As leis dos homens mudaram e isso pode estar nos confundindo. São as mulheres que são mantidas como reféns? São as que dependem financeiramente do homem? As casadas no civil e no religioso? Que namoram por mais de dois anos? Ou somente as que são felizes com seus parceiros?

7- Esclareça de novo, por favor, o dia da semana para ser santificado. Algumas religiões mudaram o dia para Domingo e tem um bando de puxa-saco querendo ir à Igreja ou ficar rezando todo dia e o dia inteiro achando que vai Te agradar mais ainda. Explique melhor que basta um dia e determine com clareza qual deve ser.

8- Fique mais atento nas florestas para que elas não sejam palcos frequentes de crimes hediondos como estupros (Outro dia, a vítima foi uma criança deficiente, não sei se Você soube desse caso). Creio que a mata dificulte uma fiscalização feita só de cima. Portanto, desça de vez em quando.

9- Evite temporais quando a noite for de lua cheia. Precisamos de mais poetas.

10- Devolva-nos o Elvis.



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Quando estava terminando de escrever os 10 mandamentos minha mãe (que mora a 20 metros de minha casa e já foi, outrora, uma católica fervorosa) me ligou dizendo que havia acabado de fazer um chá. Ao chegar lá, ela me perguntou o que eu estava fazendo em casa já que estava tão quieta (eu ligo para ela de quinze em quinze minutos e fazia uma hora que não ligava). Disse que estava escrevendo e sobre o que estava escrevendo. Nada detalhado. Falei só da idéia principal do texto.

Você sabe que os 10 mandamentos (na verdade os 6 últimos) se resumem em um só, né, Elika? Antes que eu respondesse, ela emendou: Amai ao próximo como a ti mesmo. Pensando bem, mãe, agora que você falou isso, os meus 10 também podem ser resumidos em uma única frase. É, minha filha, e qual é? Perguntou mamãe com um orgulho precipitado. Não nos sacaneie. E mordi a torrada.

Após ouvir minha resposta, mamãe, inutilmente, levou a mão direita, respectivamente, à testa, entre os peitos, ao ombro esquerdo e finalmente ao ombro direito.




segunda-feira, 1 de junho de 2009

O Aborto é o Roubo Infinito*

*Como disse Mário Quintana, o aborto não é, como dizem, simplesmente um assassinato. É um roubo... Nem pode haver roubo maior. Porque, ao malogrado nascituro, rouba-se-lhe este mundo, o céu, as estrelas, o universo, tudo! Fernando Sabido corrobora: “matar não é tão grave como impedir que alguém nasça, tirar a sua única oportunidade de ser”.


Por que tenho esta terrível necessidade de fazer os outros enxergarem as coisas da mesma forma que eu? É infantil, eu sei. Nada os obriga a fazer isso. O significado disso é que tenho medo de sentir as coisas sozinha...


Quando era menina, chegando à adolescência, lembro-me de perguntar com freqüência à minha mãe (católica fervorosa naquela época) a opinião dela sobre o aborto. Mas e se você soubesse que o neném vai nascer doente? E se você fosse estuprada? E se você corresse risco de vida? E se...? E se...? Duas coisas me motivavam a insistir nesse assunto. Uma era o fato d’eu querer descobrir a magnitude da força imensurável de mamãe e a outra era eu querer encontrar algo parecido dentro de mim. Apesar de religiosa e de ser tão firme em tantas ocasiões, mamãe me deixou várias vezes sem resposta. Mais tarde entendi que o seu silêncio era porque ela sabia demais. Como ocorre com todas as mães.

E a vida nos ensina. Eu leio muito, mamãe também, mas em nenhum livro aprendemos a sobreviver à dor não da perda mas da chegada de alguém completamente inesperado. Aos 19 anos, no meio de uma alucinada faculdade de física, engravidei. Papai, japonês e, como todos orientais um homem de poucas palavras, foi incisivo: aborta. Mamãe que andava pela casa dizendo que estava com saudades de ouvir choro de neném, pouco antes de saber de minha gravidez, entrou em desespero com a notícia. Estava aflita sobretudo pelo fato d’eu não ser mais virgem. O que será dessa menina, meodeos? Que futuro ela terá agora? Cheguei um dia em casa e me assustei ao ouvir mamãe conversando no telefone com a tia Isa. Ela mal conseguia falar de tanto que chorava. Será que se eu tivesse morrido mamãe ia sofrer tanto assim? Senti-me péssima por gerar tamanho sofrimento.

Com exceção de um colega da faculdade, todos para quem eu contei sobre a minha gravidez perguntaram (como se eu tivesse outra opção) o que eu ia fazer. Hugo foi o único que abriu um sorriso e me deu os parabéns. Talvez nunca um sorriso tenha tido tanta importância na minha vida como esse dado por Hugo. Por conta desse episódio, apesar da distância e dos anos que não o vejo sou capaz de, hoje, desenhar seu rosto. Essa recepção social, no entanto, em nenhum momento fez com que eu ficasse em dúvida quanto ao próximo passo que deveria ser dado. Pensando bem, esse foi o único momento na minha vida em que não precisei perguntar para ninguém o que eu deveria fazer. Nem mesmo quando ouvi o que qualquer mulher grávida se desespera só em pensar.

Aos três meses de gravidez estive, munida do exame de sangue, no consultório da doutora (?) Denise Ataliba. Ao ler aqueles números seguidos do símbolo de percentagem, Denise (me recuso a colocar Dra antes desse nome) olhou para mim e perguntou se eu estava sozinha. Seu marido não veio junto? Seus pais então? Hmmm... quer voltar outro dia acompanhada deles? Pode falar, doutora, estou só mas sou muitas. Bom, se é assim: teremos que fazer uma micro-cesariana e interromper essa gravidez. Você está com toxoplasmose e seu filho vai nascer deficiente. Falou algo sobre hidrocefalia, acefalia...sei lá! Não me lembro o termo clínico mas sei que deixou claro que meu filho não sobreviveria logo após o parto e eu corria um sério risco de ficar cega se insistisse na gravidez. Algo mais para me dizer, Denise? Se você pensou que eu iria permitir que você matasse o meu filho com essa mão imunda, se enganou.

Voltei andando para casa pensando em como acabaria de privar a minha mãe da alegria de viver com o fato, agora, de seu primeiro neto ser completamente deficiente. Não houve hesitação nem durante essa longa caminhada. Porém, não me lembro de ter dormido uma noite sequer durante essa gravidez sem antes encharcar meu travesseiro. Não ter opção significou “ter força”. Mas “ter força” não significou “não ter medo”.

Numa determinada tarde, ao me ver chegar da faculdade, mamãe veio aflita conversar comigo. Minha filha, você sempre me perguntou o que eu faria se soubesse que meu filho iria nascer doente. E, nesse dia, mamãe cometeu talvez o seu maior pecado e revelou a sua maior fraqueza (que eu supunha inexistente) ao olhar em meus olhos e dizer filha, eu estou ao seu lado, você sabe disso, mas a cruz quem vai carregar é você. Ser mãe solteira de um filho saudável será muito pesado mas sei que você suporta. Porém, temo em te ver cair agora com tamanha carga nas costas. Sob o risco de vida da mãe, minha filha, não creio que seja pecado interromper uma gravidez. Aqueles olhos verdes de mamãe estavam seguros. Não piscaram. Os meus também não.

Senti o neném se mexer na minha barriga logo após ouvir aquelas palavras cortantes.

Não tive forças para permitir que alguém me rasgasse e matasse a vida que estava sendo gerada dentro de mim. Percebi, naquele momento, que se eu virasse para o médico e dissesse “pode matar” estaria tudo acabado. Inclusive a Elika com toda a sua pluralidade. Agüentaria ficar cega, ter um filho deficiente, aceitaria morrer se preciso fosse mas descobri que não suportaria viver com o peso de ter dado a ordem de uma execução para ser indefeso.

Que eu sou contra qualquer tipo de religião, principalmente as judaico-cristãs, todos que me conhecem já sabem. Se hoje eu não acredito em nada não foi por falta de busca e muito menos de necessidade. Simplesmente na minha cabeça não entra qualquer espécie de ser invisível – que mora no céu – que observa tudo que eu faço a cada minuto de cada dia. Que esse ser invisível tenha uma lista especial com dez coisas que ele não quer que eu faça! E, se eu fizer uma dessas coisas, o ser invisível tem um lugar especial, cheio de fogo e fumaça, de tortura e angústia, para onde vai me mandar para que eu sofra e me queime e me sufoque e grite e chore para todo o sempre. Mas que esse ser invisível me ama! Ora, poupe-me dessa ladainha.

Porém, apesar de todo esse radicalismo eu sou a primeira a defender a posição da Igreja Católica em relação a um único tema: o aborto. Sou tão inflexível quanto o Papa nessa hora e comungamos da mesma opinião. Somos contra, definitivamente contra, em qualquer ocasião. Para mostrar a força da minha falta de moderação quando o assunto é o aborto darei um exemplo: o caso da menina de 9 anos que engravidou de gêmeos pelo próprio padrasto no início deste ano. A gravidez só foi descoberta depois que a criança se queixou de dores e foi levada pela mãe à Casa de Saúde São José, em Pesqueira (PE). Os médicos classificaram a gestação da menina como de alto risco, pela idade e por ser de gêmeos. Aqui reafirmo.Essa criança tinha que ter levado essa gravidez adiante.

Fácil falar que ela deveria interromper a gravidez que já se estendia para três meses de gestação. Mas, para esses que se manifestam a favor desse aborto eu pergunto: e se fosse você a realizá-lo, a dizer, se fosse você o responsável por transformar duas vidas em imagens como essas que acompanham esse texto, você teria coragem de fazê-lo? Ao invés de uma, o infeliz desse padrasto juntamente com a equipe médica fizeram três vítimas. O aborto, embora muitos não saibam, pode causar dor em fetos ainda pouco desenvolvidos a partir da décima-sétima semana de gestação. Já existe hoje a opção de anestesiar o feto durante a interrupção da gravidez, porém, até onde eu pesquisei ainda não existe nada que anestesie a consciência. A não ser a covardia.

Em tempo, Hideo hoje tem 15 anos e é de longe, a melhor escola que já freqüentei. Tão (im)perfeito quanto qualquer um de nós.


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ERRATA:
Assim que postei o texto, minha filha de 11 anos quis ler. Ao ver Nara ali, sentadinha, assustada de frente para a tela do computador percebi que errei ao dizer que a minha postura seria a mesma em qualquer ocasião. Se a vida da Nara estivesse em risco eu seria a primeira a fazer o que fosse necessário para que a vida dela fosse preservada.

Enfim, encontrei em mim a mesma fraqueza de minha mãe que outrora mencionei...

Como viver pode se tornar algo complicadíssimo, não é mesmo?